A fina estampa de Inácio Ribeiro

Há um ano e meio atrás toca o telefone e era Regina Guerreiro. Uma assistente dela havia me indicado. Ela queria uma entrevista com o Inácio Ribeiro, que era amigo particular dela há muitos anos. Sabe aquela tremedeira que dá? Eu sempre quis trabalhar com ela, pois de todas as editoras de moda é a que eu mais admiro.

Fiz a entrevista por email e depois liguei para ele para complementar algumas questões. Muito educado, de fala pausada. Dava para ouvir um mundo de gente falando em volta e ele respondendo as perguntas com muita atenção. Era véspera do desfile da Cacharrel.

Entreguei a matéria e se passaram um, dois, três dias e nada da Regina ligar. Tomei coragem e liguei, perguntando se ela tinha gostado da matéria. Ela, num tom muito irônico, respondeu: “Se eu não tivesse gostado, você seria o primeiro a saber”. Na edição do verão passado, toca o telefone de novo. “Oi Ricardo, eu sofri um acidente em Paris e não vou poder cobrir o SPFW, queria que você fosse meus olhos nesta cobertura”. Assim começou minha história com ela, que me chama de Maria Eduarda, é minha amiga querida e minha chefe 2 vezes por ano. Este é o texto-teste que me fez trabalhar com uma lenda viva da moda.

Dois ícones da moda, Madonna e Nicole Kidman estão entre suas clientes estreladas. Para muitos, esta dose XL de glamour seria o suficiente, mas Inácio Ribeiro mantém uma distância do mundo dos flashes e trabalha duro à frente de sua marca Clements Ribeiro e da tradicional Cacharel. Saiba mais sobre o estilista e seu o dia-a-dia fashion globalizado.

Seu começo na moda foi…
Nasci em Itapecerica (MG) e não fiz nenhum curso de moda. Minha carreira começou por acidente, quando minha prima abriu uma boutique na Savassi. Uma coisa puxou a outra e de vendedor a vitrinista e estilista foi um passo. O Armando Gaudêncio da Divina Decadência me descobriu ali.
Foi estudar em Londres porque…
Eu resolvi estudar porque me deparei aos 22 anos com uma carreira de moda sólida, sem sequer haver feito uma escolha consciente ou treinamento. Ponderei por alguns meses se mudaria de carreira, mas optei por ir a fundo e estudar na St. Martin´s.
Fazer escola de moda ajudou a…
A St. Martin’s me deu uma ótica nova, uma oportunidade de trabalho livre de tendências, uma atmosfera estimulante e três anos de vagabundagem criativa em Londres. Além do meu casamento e parceria com a Suzanne Clements, é claro, que conheci e me apaixonei no primeiro ano do curso.
O primeiro desfile da Clements Ribeiro na London Fashion Week foi…
Bárbaro, porque inocente e sofisticado. Na mansão da Embaixada Brasileira, o desfile teve um refinamento natural e despretensioso. Os bastidores foram invadidos por editoras do Vogue Inglesa e da Harper´s Bazaar Americana: eles não esperavam em desfile assim em Londres e nosso sucesso de imprensa foi imediato.
Segundo o livro The London Fashion Book, tanto o suéter de cashmere listrado, como aquele da bandeira da Inglaterra, foram os desenhos mais copiados nos anos 90…
O twin set listrado de cashmere nasce no segundo desfile e se tornou icônico da noite para o dia. Nessa mesma coleção introduzimos um estilo que chamamos de “Chic Suburbano”: misturamos listras, estampas, xadrezes, em materiais de alta qualidade. Além disso, resgatamos um pouco dos anos 70 de gosto duvidoso, aliados a uma sofisticação inegável. Os clientes ficaram loucos, mas tinham muita dificuldade em comprar os looks, porque o estilo era todo em acumulações e contrastes. Este look, cinco anos depois, virou regra e hoje todo mundo sabe misturar. Mas em 1993 era revolucionário!
Para você, os seus desfiles mais importantes são…
Os desfiles que considero importantes são aqueles que acrescentam algo de novo e importante para história ou vocabulário da marca. Um dos meus preferidos é o de inverno 98 quando a inspiração foi Orlando, personagem mítico da escritora Virginia Woolf. Do verão de 2002, me vem à lembrança do lançamento do twin set de bolinhas, que acabou virando um clássico da Clements Ribeiro.

Vocês foram escolhidos para Cacharel porque..
O dono da Cacharel, Jean Bousquet, estava assistindo a um programa de televisão quando viu um desfile da Clements e ficou fascinado pelo trabalho. Procurou arquivos de outros desfiles na internet e disse que nossa marca era a versão luxo da Cacharel, exatamente o que ele buscava para rejuvenescer a grife.
Seu dia-a-dia na Cacharel é…
Moro em Londres, mas fico em Paris dois ou três dias por semana supervisionando todos os aspectos da direção criativa da Cacharel. Por incrível que pareça, não há arquivos de estilo como nas outras marcas. Sua tradição é de imagem ou campanhas de perfume. Nossa pesquisa partiu da herança sentimental da grife, como o perfume Anais Anais, escolhido pelas adolescentes naquele momento quasequase mulher. As coleções se baseiam nesta imagem, do momento de descoberta da feminilidade e da moda, da autonomia das escolhas. A marca já tinha a mania de estampas e cores fortes, trouxemos o ecletismo e a acumulação de referências de diferentes épocas no mesmo look.
Mesmo com os problemas de produção e distribuição da Clements, os acessórios ainda são fabricados…
Quando começamos a desenhar bolsas, pensamos num aspecto mais clássico, porque são feitas para usar por muitas estações, ao contrário dos sapatos. Neste item optamos por algo mais excêntrico, porque é o tipo de acessório que tem a ver com o espírito momentâneo da cliente.

As compradoras destes acessórios são…
Mulheres que já têm uma certa coleção de acessórios e buscam algo que não seja óbvio e nem “a-bolsa-do-momento”. Penso sempre: é a mulher que carrega a bolsa, não a bolsa que carrega a mulher.
A sua atitude perante aos recentes problemas na produção e distribuição da Clements foi…
Nossa atitude é filosófica: não é todo dia que a gente pode reinventar nossa vida. Nós guardamos a marca e desde então temos estudado várias ofertas e alternativas. Agora, eu e Suzanne, temos uma oportunidade de recriar nossa marca de uma maneira mais estudada e adaptada a nossa vida pessoal. Estamos num momento de planejar o relançamento da marca e em 2007 voltaremos. Aguardem!

A arte transformadora de Claudia Andujar

Este artigo é uma declaração de amor e respeito a fotógrafa e artista Claudia Andujar e sua célebre foto Yanomani da séria A Casa de 1976, que teve o poder de transformar minha percepção da fotografia. 

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Você já se deparou com uma obra de arte que você não consegue tirar da cabeça? No meu caso, se trata da foto Yanomani da série A Casa (1976) de Claudia Andujar. É  uma imagem mundialmente conhecida e que tem a primeira vista este tom de mágico, em que tudo parece sagrado, ou para alguns, quase uma imagem de outro planeta. Mas a história de como esta obra me acompanha, trata da minha própria relação com a arte, e mais especificamente com a fotografia.

 

Depois de ver esta imagem, descobri que a artista nasceu em 1931, na Suíça. Em 1944 os alemães ocuparam o país e mais de 400 mil judeus foram mandados para os campos de concentração e boa parte de sua família, incluindo seu pai, foram mortos do campo de extermínio de Dachau. Claudia e sua mãe conseguiram fugir em um trem que transportava gado. Em 1955, veio ao Brasil e aqui se tornou brasileira. Trabalhou na extinta revista Realidade. Por lá conheceu os Yanomanis e se engajou na causa indígena.

Conversando com Eduardo Brandão, galerista da artista, sobre a questão técnica de Andujar, perguntei como ela consegue dar esta dimensão mágica na fotografia. Ele me explicou que uma de suas principais idéias foi a substituição de equipamentos de flash pela distribuição de lampiões de querosene no interior da oca. Com isso, a imagem exibe uma espécie de “deslocamento” dos elementos à volta do índio, sugerindo a migração de sua consciência: focados em primeiro plano, e por conseguinte o índio parece flutuar sobre um fundo de luzes.

Quando finalmente conheci a artista e perguntei qual o motivo que a leva a querer fotografar, para talvez entender meu próprio fascínio pelo seu trabalho: “É através da imagem do Outro que cheguei a me conhecer e cheguei a entender o amor que nutro pela vida; a angústia de poder penetrar e captar o ser em seu íntimo; uma imagem que acaba de se refletir em mim”.

Tudo o que procuro ver na arte tem este aspecto transformador, de alteridade. Quanto mais aprecio, estudo e me aprofundo nas artes, mais me modifico como pessoa.

Brechó Juisi By Licquor entra na era dos blogues

Tem gente que ama liquidações, e acredite tem outras que não. “Ui, medo de ver alguém vestido igual a mim”. Eu não tenho este problema, e se encontro alguém vestido igual, sempre levo no bom humor e elogio o bom gosto.

Tem gente que ama brechós, e muitas não. “Ui, tenho medo de usar roupa de gente que já morreu”. Eu novamente não tenho este pensamento. Com tantas idas e vindas da moda (anos 20, 30, 40, 80), muitas vezes, é bom recorrer a algo original.

É claro, que tanto liquidações quanto brechó, é preciso muito olho, tempo e paciência. Eu não recomendo compras de impulso, dias que estamos meio deprês, porque no final, aquela pechincha vai ficar dentro do armário.

Como um dos meus trabalhos atuais é receber convidados especiais (VIP é uma palavra que não uso mais) e imprensa, toda santa sexta no Clube DEdge, em São Paulo, é claro, que tenho que pensar em que roupa vou usar, o que quero sinalizar naquela noite, que público quero atingir e a roupa é um código que simplifica tudo isso.

Quem me conhece, sabe que eu adoro brincar com estes códigos. Masculino e feminino, fashion addict, fantasia…não importa. No desfiles de moda, então, me divirto mais ainda. Uso chemisier da Karlla Girotto, camisetona, camisa-vestido do Herchcovitch…não importa.

Na última temporada, fui entrevistar a Priscila Daurolt depois de sua estréia, saí do camarim com um presente inusitado da Cris Narvaes, a peruca do desfile. Não tive dúvida, coloquei a peruca e saí com ela, afinal se minha chefe querida, Regina Guerreiro, pode, porque eu não?

Neste dia, encontrei simultâneamente a Marcia Matsuno da Luminosidade e o Jeff Ares, editor do site Vogue RG, que entra no ar nesta sexta. Eles disseram que no meio de tanta gente que se leva a sério, era um oásis me ver, porque eu me divertia com tudo aquilo.

É claro, que quem não me conhece, acha que eu quero aparecer, que é um absurdo, etc etc etc. Mas, sorry, é muito bom ter uma capacidade lúdica neste mundo fashionista. E digo mais, todo mundo te dá entrevista, todo mundo fala com você, a vida dura de cobertura de semanas de moda, acabam sendo muito mais leves. Veja Anna Piaggi da Vogue Italia. Amo.

Mas como não é todo dia, que a gente tem grana para todos os modelos que a gente sonha, a ordem é adaptar. Em São Paulo bato cartão em dois brechós, que todo produtor de moda conhece: Minha Avó Tinha, do Franz, que sabe tudo de história da moda e no Juisi By Licquor da Simone e do Ju, com os famosos carregamentos do Japão, e abriram um corner na loja Theodora, da Rita Vainer, com preciosidades de cortar os pulsos.

A Juisi aderiu a onda blogueira e tem sempre um modelo com o preço que você pode reservar. Porém, o melhor de tudo, é reservar um tempinho e ir lá fuçar. Os preços são ótimos e tem sempre uma peça que seu guarda-roupa precisa.

Vai lá!

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