“Não existe ‘A’ moda e sim um espírito de uma época que flutua sobre todas as modas”, declara Colin McDowell

Assim, meio de surpresa, o povo sendo avisado por email pela Alice Ferraz , aconteceu na quinta (20), a palestra de Colin McDowell, no Instituto Europeo de Design. Ah! De graça…Presentão!!!

Crítico do Sunday Times, autor de vários livros sobre a moda e criador do prêmio inglês para jovens designers, o Fashion Fringe, as usual, ele brindou uma platéia, na maioria formada por estudantes de moda, com sua paixão e seu pensamento aguçado-contemporâneo sobre a cultura fashion.

Leia aqui um resumo da palestra.

Conselho para jovens estilistas
“São vocês que tem que descobrir seu próprio DNA”, ele abriu sua fala de mais de uma hora. “Para ter sucesso na moda é preciso descobrir o outro. É preciso afiar seus olhos e ver como as pessoas vivem, ouvir música, ir ao cinema”.

O grande conselho dado aos jovens presentes na platéia, foi que eles devem olhar os que outros designers estão fazendo, mas não no sentido da cópia, mas da excitação de novas idéias, de usar esta pesquisa para estimular novas formas.

“O mundo da moda não tem meias medidas”. O estilista tem que saber o que gosta e não gosta com profundidade, tem que saber analisar, saber desmembrar uma roupa. Entender a si mesmo e ao mercado e saber o que ele quer de você.

E lembrar que a moda atinge poucas pessoas. Milhões no mundo não se vestem para impressionar ninguém, outros tantos sobrevivem com um par de roupas. “Moda é status e você deve saber avaliar isto”.

Desfiles e marketing
Sobre a importância dos desfiles, ele fez um comentário muito pertinente e é uma situação que já estamos vivendo no Brasil. Louis-Vuitton, Prada, Christian Dior fazem desfiles com o custo de US$ 2 milhões para vender bolsas, sapatos e perfumes, que representam 80% dos seus respectivos faturamentos.

McDowell sintetizou este processo com uma história. Pense um homem que vê no jornal uma foto do desfile da Dior. Ele comenta “Isto é ridículo, quem vai usar isso?”. Passado um tempo, ele esqueceu do aniversário da mulher, entra em uma loja, apressado, em pânico e quer dar uma coisa sofisticada para ela. Ele vê um perfume da Dior e compra, amparado por aquela notícia que leu no jornal.

Os desfiles servem para mostrar uma estética de determinada marca, mas a maioria das coisas não vão para lojas. O que importa é ganhar páginas e páginas de jornais pelo mundo a fora com uma foto de sua coleção assinada por você.

Ele explica que as idéias de haute-couture passam por muitas idas e vindas até se transformarem em peças que possam ser consumidas por pessoas comuns. Ele usou o a lingerie de Jean-Paul Gaultier para exemplificar esta questão. O escândalo que o estilista francês causou na época que colocou do lado de fora as roupas de baixo.

E não é que numa entrevista para o Estadão eu citei o mesmo exemplo???

Aquecimento global
Consciente dos problemas ecológicos, que estão na pauta do dia, disse que por causa do aquecimento global as diferenças climáticas de uma estação para outra estão cada vez menores e que isso vai se refletir nos lançamentos de moda. Ele profetiza que daqui um tempo, não terá esta concentração em uma determinada semana, e que os estilistas poderão lançar coleções ao longo do ano. Será?

Moda masculina
“Os homens são o sexo amedrontado em termos de moda. Ele tem medo dos outros homens. E são incrivelmente chatos no seu modo de vestir”. O desenho da moda masculina é muito duro e leva muito tempo para mudar. Quaisquer traços femininos ou homossexuais no vestuário masculino são imediatamente rejeitados pelo homem comum.

É uma questão cultural, explica o crítico. Quando duas mulheres se encontram elas possivelmente vão elogiar a roupa, o cabelo da outra. Você já ouviu de um homem, “Nossa que roupa incrível a sua?”

Por mais que a maioria dos estilistas seja homossexual, e lancem saias para homens, como Galliano e Gaultier, dificilmente isto vai ser absolvido por eles. Para a moda masculina as pequenas mudanças levam muito tempo. “Eles não gostam de se arriscar tanto quanto as mulheres”, conclui.

Para os jornalistas de moda
“Eu não piso no Sunday Times há 20 anos. Se um dia eu fizer isso, eles vão arrumar um monte de coisas para eu fazer e eu nunca mais vou poder visitar um estilista, viajar, pesquisar”.

Não é nosso sonho de consumo? Eu saí recentemente da UOL e sei exatamente o que ele quer dizer com isso. Depois da palestra, fui dar uma volta pelos Jardins para pensar a moda e minha atitude perante ela.

Na próxima cobertura da Caras, espero que eu consiga mudar muitas coisas.

A Biti Averbach fez uma pergunta sobre como fazer uma boa crítica de moda. Ele respondeu que ser crítico não é só procurar as coisas ruins e que temos que fazê-la afastado de nossas emoções.

“Um bom crítico de moda tem que se aprofundar, precisa saber de cinema, arte, música. Saber sobre o mundo. Se um estilista diz que se inspirou no Art Deco, eu tenho que saber o que é Art Deco, para poder criticar”.

Para pensar
“Não existe agora “A” moda e sim um espírito de uma época que flutua sobre todas as modas”.

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