Bastidores de um desfile moda: Fotografia

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Fotografia de Renato De Cara nos bastidores de Herchcovitch Verão 2007

A fotografia de moda tem vários cliques e olhares diferentes: a fotografia de passarela, backstage, catálogo e de editorias de moda. Cada uma destas imagens, exige uma postura diferente do fotógrafo.

O fotógrafo, jornalista e curador Renato De Cara explica as diferenças. De Cara é fotógrafo desde 1999 e sempre preferiu fotografar uma coleção do backstage, quando as modelos estão na fila prontas para entrar na passarela. Ele é, também, curador do espaço Mezanino da loja “Banca de Camisetas”, nos Jardins em São Paulo, onde faz exposições que estabelecem uma relação entre imagem, moda e arte.

1. Fotografia de passarela

“É uma fotografia bem técnica, de fotorreportagem. A grande preocupação do fotógrafo é com o foco e a nitidez da imagem. Para se obter uma boa foto de passarela, duas coisas são importantes. Primeiro o posicionamente no pit (local reservado para os fotógrafos e cinegrafistas na sala de desfile). Vários profissionais mandam seus assistentes para reservar um bom lugar no pit com antecedência, já que não há grandes intervalos entre as apresentações. Outra coisa que ajuda muito, é quando o diretor de desfile, explica para os fotógrafos como será a luz do desfile, o que já faz com que o profissional pense nas aberturas e velocidades adequadas para se conseguir uma boa foto”.

2. Fotografia de Backstage

“Eu por opção prefiro fazer fotos no backstage do desfile, no momento em que as modelos estão prontas, na fila de entrada do desfile. Neste caso, diferente da passarela, tem mais emoção, as meninas estão mais relaxadas ou tensas, sem aquela atitude de desfile. Não tem cenário, luz especial, me sinto mais próximo do produto”.

3. Fotografia de catálogo

“É o momento seguinte ao desfile. Aqui a criação é mais solta e as condições de fotografia mais controladas. Tem uma reunião com o estilista, o stylist e, em alguns casos, com o cenógrafo para entender qual a imagem que se quer da coleção. Você pode fotografar em estúdio, numa externa, depende do que ser quer”.

4. Fotografia de editorial de moda

“Esta parte pertence ao editor de moda da revista. Recebemos um briefing, os looks que vão ser fotografados montados pelo stylist, as modelos, vemos o cabelo e o make, se vai ser em estúdio ou externo, qual a atitude que se quer. Ao mesmo tempo, vamos pensando qual a técnica que vai ser usada, a luz. Antigamente, ou ainda hoje, quando se usa filme, muitos fotógrafos fazem um teste com a polaroid para uma checagem. Com as câmeras digitais isso não mais necessário. Depois a foto ainda recebe um tratamento digital, do diretor de arte, que pode fazer interferências nas imagens, para se chegar ao resultado final”.

Bastidores de um desfile moda: Beauty

27_spfw_inv07_05fabiabercsek_f_047.jpg Silvia Borelli /UOL

Beleza de Marcos Costa para Fabia Berseck Inverno 2007

O beauty-artist Marcos Costa (Natura) foi responsável por momentos impactantes de beleza nesta temporada, como as cabeças com fumaça no desfile de Ronalgo Fraga, o make-up anos 80 de Fabia Bercseck e os cabelos dramáticos de Lino Villaventura. Costa trabalha com make & cabelo desde 1983 e foi contratado pela Natura, para ser o maquiador oficial da marca, em 1998. Nesta entrevista ele explica como se monta uma beleza para desfile e quais são as tendências de maquiagem para o Inverno 2007.

A. Briefing e pesquisa
“Primeiro se tem uma reuinão com o estilista que ele fala sobre a coleção, mostra suas pesquisas e influências. Depois parto para minha pesquisa. Na Fabia Bercseck, por exemplo, tive uma reunião no final do ano, dia 03 de janeiro eu estava na rua 25 de Março (zona central de São Paulo) e achei umas estrelas metálicas e comprei 1kg. São superbaratas e dão grande efeito na passarela”. Estas estrelas foram usadas por Costa como sombra nas modelos e no look final desfilado por Sheila, como uma máscara (foto acima). “A inspiração foi o Pablo, do programa ‘Qual é a música?’ do Silvio Santos”, revela.

B. Prova de beleza
Com a pesquisa finalizada, começam as provas de beleza. “Com a idéia pronta, começamos a montar a beleza, fotografamos e se o estilista não for da cidade, mandamos a imagem e se aprovada, começamos a produção”.

C. Produção
Neste momento, entra em campo Marcia Paiva, que coordena a produção e também uma equipe de 23 profissionais — entre maquiadores, cabelereiros e manicures — que atuam no backstage da apresentação. “Para o desfile do Ronaldo Fraga, por exemplo, chegamos a ter mais de 300 tranças prontas para começar a modelagem na cabeça das modelos”, explica a produtora. Ela está sempre atenta aos detalhes do que vai ser necessário para executar a beleza elaborada por Costa: como unhas postiças, materiais especiais, planilhas e cronogramas de maquiagem e cabelo de cada desfile.

D. Backstage
“Mesmo com toda a preparação com antecedência sempre acontecem imprevistos de última hora e é bom ter um plano ‘B’. Para o desfile do Lino Villaventura pensei em vendas de organza negra para os olhos, mas um dia antes, a Chanel usou no seu defile de Couture, e acabamos desistindo da idéia”.  No camarim, cada bancada tem um foto do make que a equipe deve executar. O problema é quando ocorrem os cruzamentos – modelos que saem de um desfile para outro e caba atrasando a produção. No Lino, oito modelos chegaram às 19h10 e às 19h29 estavam prontas, com cabelo, maquiagem e unhas postiças pintadas na mão e pés feitos.”

Tendências de make para o Inverno 2007 

“Tanto na moda, quanto no make, as tendências são muito democráticas. Isso porque a moda da passarela de uns anos para cá, tem incorporado o street, a moda que vêm das ruas. De qualquer forma, o batom vermelho volta a ser um hit, assim como foi nos anos 20, nos 80. Ele sumiu no minimalismo dos 90, mas volta agora reeditado em gloss, com transparências. Os tons pastéis e claros continuam em alta para os olhos, assim como os falsos pretos, como o grafite. Outra tendência forte, que veio do verão, e que a brasileira adora, é a maquiagem neutra, mais corretiva e com ar de frescor”.

Bastidores de um desfile moda: Cenografia

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Cenografia do Marton para Herchcovitch Inverno 2007

A passarela de um desfile é muito mais do que apenas o espaço por onde caminham as modelos – assim como a luz e a trilha sonora, ela serve para expor ao público o clima e o ambiente imaginado pelo estilista para apresentar sua coleção. É, assim como as roupas, uma imagem que deve ser bem elaborada e impactante. Alguns criadores optam por uma passarela simples, pretas ou brancas, mas há quem prefira cenários que reforcem a imagem proposta para a coleção.

Nome de respeito na área, José Marton é recordista de projetos temporada de lançamentos de Inverno 2007, assinando os cenários da Forum, Triton, Alexandre Herchcovitch (feminino), Iódice, Neon, André Lima, Vide Bula, Cori e Zoomp. Abaixo ele explica tim-tim por tim-tim como se planeja um bom projeto cenográfico.

Primeiro passo: “Briefing com o estilista. Peço para que ele exemplifique seu desejo, com palavras e imagens. O stylist da marca muitas vezes está presente nestas primeiras reuniões”.

Segundo passo: “Aprofunda-se o briefing com o stylist. Vejo a cartela de cores da coleção, que conta muito na hora de propor o cenário, e procuro saber as sensações que se quer passar no desfile. Por exemplo: se a intenção é despertar um frescor, vou pesquisar materiais que produzem esta sensação”.

Terceiro passo: “Execução da maquete, que geralmente é feita numa escala 1:50, ou seja, cinquenta vezes menor que o tamanho natural. Este modelo facilita a visualização da proposta pelo cliente. E eu sempre indico que se olhe na altura do olhos, e não de cima, para se tem uma visão realmente das proporções. Procuro usar os materiais que vou empregar, ou pelo menos, uma representação destes. Esta é parte mais importante do processo, porque ali se decide por onde entram as modelos, o ritmo do desfile, a entrada do público, localização do pit dos fotógrafos. Um cenário é bom quando o desfile é bem visto tanto por cinegrafistas e fotógrafos, quanto pelo o público presente na sala”.

Quarto passo: “Detalhamento do projeto, orçamento e logística de montagem. Dada a aprovação, as partes do cenário entram em linha de produção. Muitas vezes, tenho quatro cenários sendo fabricados simultaneamente. Com muitos clientes temos tempo para isso, mas há casos em que se têm apenas sete dias, o que é muito pouco”.

Quinto passo: “A montagem do cenário é decidida pelo horário em que a marca desfila. Se ela é o primeiro desfile de uma sala, temos a noite toda para montar. Quando é a segunda, muitas vezes temos apenas duas horas. Finalizado este processo, temos a afinação da luz, o ensaio do desfile, e finalmente a apresentação.”

Bastidores de um desfile moda: Stylist

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Obra de Mauricio Ianes e Herchcovitch na exposição Viés

Maurício Ianês é artista plástico, performer, pertence ao casting da hypada Galeria Vermelho mas, para o mundo da moda, ele é o stylist inseparável de Alexandre Herchcovitch. Na temporada de Inverno 2007, além do feminino e masculino de Herchcovitch, ele assina Cori, Wilson Ranieri, Cavalera e no Rio de Janeiro, Acquaestudio.

Aqui ele explica o ABC do stylist.

A. Conhecer a coleção
“Mesmo que não tenha a roupa pronta, é importante ver a pesquisa do estilista, a cartela de cores, os tecidos, o tema. Depois complemento com sugestões, tanto de imagens, quanto de peças e acessórios, que pela intuição, acho que serão necessárias para formatar uma edição para o desfile”.

B. Juntar lé-com-cré
“Momento que você começa a juntar as peças de roupa da coleção, conversa com o maquiador e cabelereiro, estuda a beleza do desfile junto com estilista. Vê se é preciso produzir acessórios, sapatos. O trabalho do stylist é ao mesmo tempo filtrar e acrescentar”.

C. Cenário e Trilha sonora
“Nem sempre o stylist participa desta etapa, mas gosto de acompanhar e opinar. É importante saber como vai ficar a edição final e ver se é preciso mudar algo”.

D. Casting
“Muitas vezes existe o Diretor de Casting, que escolhe os modelos, em outras, o estilista e stylist podem decidir. Nesta hora, vemos se existe a modelo que será a ‘cara’ da coleção. Neste caso, ela pode abrir ou fechar o desfile, ou ambas as coisas”.

E. Prova de roupa
“Ver qual o look fica melhor em cada modelo. É a hora que os looks que entrarão na passarela estão montados e editados”.

F. Ensaio
“No ensaio se afina a trilha, o andamento do desfile e principalmente a luz da passarela. Tem edições que pedem uma luz mais fria ou mais quente – mais ou menos dramática. Decide-se também a ordem da entrada de cada modelo”.

G. Desfile
“No backstage, monta-se as araras, com os looks que cada modelo vai usar. Tem uma ficha técnica com a descrição de cada uma das peças que compõem o visual, acompanhada de uma foto. Passo com as camareiras todas as peças, ordem de vestir, para que a troca de roupas seja eficiente. No dia do desfile, fico na fila de entrada dos modelos finalizando um por um e conferindo se está tudo certo”.

Bastidores de um desfile moda

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Quarta (02) começa a Casa de Criadores, que todo mundo já sabe. Achei um bom momento para reeditar os textos que fiz para o UOL sobre os bastidores dos desfiles, com o objetivo de revelar quais as engrenagens que movem aqueles poucos minutos, que revelam o trabalho de meses. Nem sempre tudo dá certo, porque coordenar as diferentes áreas que compõem um lançamento de uma coleção é um trabalho insano.

Entrevistei o Mauricio Ianes para falar sobre stylist, Marton sobre cenografia de desfile, Max Blum acerca de trilha sonora, Marcos Costa para beauty e o Renato De Cara que diferenciou os diferentes tipos de fotografia de moda. Cada um revelou o passo-a-passo para conceber sua parte nesta engrenagem fashion.

É claro que temos outros profissionais envolvidos, como o diretor de desfiles, as camareiras, iluminador, técnicos, mas é o que deu para fazer, na época. Foi uma pincelada, para quem não é do meio, começar a compreender que a moda vai além dos estilistas e modelos.

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