Receita de bolo: texto e crítica de moda

Por ocasião da abertura do calendário de Inverno 2008, com a Casa de Criadores, a reportagem sobre o texto de moda voltou a ser destaque, ainda mais depois do Pense Moda. Analisar um desfile está muito além do gosto pessoal e da descrição. Sempre falo isso, escrevo sobre, mas nunca parei para pensar como construo uma crítica de moda.

Eu tive uma das melhores mestras na área para isso: Regina Guerreiro. Por outro lado, também não fiquei parado. Estudei, li vários livros de moda, leio os textos das pessoas que admiro, assisto programas, comparo as visões, lido com minhas deficiências, vou atrás da informação.

Há uma diferença entre texto de moda e crítica de moda. O que geralmente temos é texto de moda, porque crítica como foi apontado no Pense Moda, ainda estamos longe, por uma questão simples: investimento e cultura de moda. De novo: somos adolescentes em termos de moda, as faculdades de moda surgiram há pouco tempo, estamos começando a formatar uma bibliografia de moda brasileira, e temos muito chão pela frente.

Falta investimento para que o jornalista se torne um crítico de moda. De qualquer forma, estamos avançando para que pelo menos, a reportagem de moda avance.

O que vem logo abaixo, é uma técnica que uso para escrever sobre um desfile. São as anotações que faço, quase um passo-a-passo do texto final.

Primeiras impressões:

1. Conceito da coleção: ver se a história contada no desfile está coerente

2. Modelagem: é primeira coisa que presto atenção, talvez por que minha formação é de arquiteto. Então, a estrutura de roupa sempre me interessa. Tem estilista que trabalha só com tecidos planos, a estrutura é mais simples. Tem os que preferem a moulage, ou seja, cortar a roupa direto no manequim e depois passar para o molde. Outros trabalham com o corte de alfaiate, mais elaborado tecnicamente, e por aí vai.

3. Tecidos: era uma deficiência minha, entender de tecidos e ainda estou aprendendo. Com as revoluções tecnológicas, então nem se fale. Vale a pena ir no backstage e perguntar, perguntar. Eles são responsáveis pelo caimento das roupas. O DouG e Natalia explicam mais abaixo as diferenças entre tecidos (ótimo, não?)

4. Cores: elas estão diretamente ligadas ao desejos da estação. Pela cartela de cores a gente pode antever os desejos da estação. Mas não se engane, elas foram decididas muito tempo atrás, ou seja, a cartela de cores faz parte de pesquisas da indústria têxtil, que tem que definir muito antes sua produção.

5. Comprimentos: mesmo com toda a democracia fashion, tem sempre um comprimento dominante, que fazem a cara da estação.

6. Releases: nem sempre ajudam muito, às vezes, atrapalham. Cada pérola. O Zeca Camargo tem uma coleção incrível. Releases são as informações que você recebe sobre a coleção. Os melhores que eu li até hoje, são os mais suscintos: nome da modelo e descrição do look, só isso. Deveria ser regra.

7. Prestar atenção na fila de agradecimentos: um desfile é feito em blocos. Com um bom trabalho de stylist, você percebe as mudanças e nuances da coleção. Sempre é bom perceber, que o primeiro look anuncia o bloco ou faz a transição de um bloco para outro. O terceiro look geralmente é uma síntese importante das idéias da coleção. Uma dica boa é prestar atenção nas modelos. As mais importantes abrem e fecham o desfile, ou vestem as sínteses de cada bloco. Fácil, não?

Segundas impressões

1. Para quem é feita a coleção: este parâmetro ajuda a definir se a coleção é um sucesso ou a marca está atirando para tudo quanto é lado. Quanto mais ele sabe para quem está fazendo, melhor chances de um bom resultado.

2. Tem algum avanço?: começa a pesquisa. Antes de cobrir os desfiles, o jornalista tem que se preparar um pouco. Ver o que cada marca fez na coleçãoou coleções passadas, e ver se de fato ele evolui na linha que ele desenvolve ou se é um caso crônico de fashionismos e atira na direção do último grito da moda.

3. Comparação: sim ela existe, mas deve ser feita com cuidado. Não dá para comparar Colcci com Huis Clo, sabe como? Separe em blocos: moda feminina, moda masculina, moda jovem, jovem criadores, para estabelecer bases de comparação. A cópia vem sendo muito observada por todos. Então dar uma busca nos desfiles internacionais ajuda. Agora, não confunda cópia com desejos da estação. Se a pantalona vem surgindo por aí, veja o que aquela pantalona da marca x acrescenta na proposta original da marca y.

4. Desejos da temporada: estou usando este termo, para não falar de tendências, que já foi muito debatido pelos blogues. Antes de mais nada, os birôs de estilo já anunciam 2 anos antes as macrotendências de comportamento. Isso ajuda a balizar o que pode pegar ou não numa estação. Se o desejo é curto, pense quais os curtos que se deram bem: cor+tecido+modelagem. Há quanto tempo um desejo têm aparecido nas passarelas? Vale a pena começar a contruir sua biblioteca de informações deste tipo. É igual para o jornalista esportivo: ele sempre tem quantas vitórias um time teve, qual foi sua campanha no campeonato passado, dados estatísticos. Para a moda também vale, viu?

5. Entrevistas e bastidores: Não precisa exatamente falar com o estilista, mesmo porque as perguntas geralmente são as mesmas. Mas asseguro que frequentar bastidores você toma posse de um monte de informações muito valiosas, que vão ajudar e muito no seu texto. Mas tem que se programar e muito. Antes ou depois de um desfile. Antes pode ser mais fácil de entrar no camarim, mas muitos estilistas odeiam dar entrevistas antes. Depois, você vai ter problemas para entrar dada a quantidade de gente entre imprensa, amigos e clientes que vão dar um olá. De qualquer forma, você vai aprender por si só, como fazer isso e descobrir qual o melhor momento para cada um. O veículo para qual você trabalha importa muito nesta hora. A proximidade que você construiu com as assessorias também ajudam e muito. Assim, como o estilista te reconhecer é um ponto muito importante.

Impressões finais:

De posse de seu caderninho, ou de seu laptop, como a Suzy Menkes faz, as anotações são fundamentais numa cobertura. Não é frescura, porque a memória depois de 7 desfiles no mesmo dia, vai te trair. Cada um tem um jeito de anotar. Eu anoto, desenho, faço o diabo com meus caderninhos. Depois passo a limpo tudo.

Aí, depende do tipo de cobertura que você faz. A online é mais complicada de todas. Mas tem muito do calor da hora, da rapidez com que a informação chega. Depois, a informação é digerida em balanços e tudo vai ficando mais claro. Cada um tem um estilo de texto para isso. É uma técnica jornalística de respostas clássicas: o que, como, onde, por que. Geralmente são mais descritivas com alguma opinião.

Vocês sabem o quanto odeio descrições, e penso que elas deveriam vir na forma de álbum de fotos e colocar a descrição por ali. O texto de um desfile deve levar em conta que quem não está ali, quer saber como foi, quem foi, etc. Mas também quer saber o que o estilista mostrou. A opinião do jornalista deve ser levada em conta para ampliar o conhecimento do leitor sobre a coleção. Um pouco de redundância é bom, mas ficar só nisso é um perigo.

O título e o abre são fudamentais na internet, porque geralmente é isso o que conta, dada a quantidade de gente que lê na diagonal. Dá uma rápida olhada no texto e corre para o álbum de imagens.

As revistas semanais, dão conta geralmente do who is who, quem foi, onde foi, o que achou. Tem uma edição dedicada a um balanção geral. O que vai pegar, apostas, etc. É um fechamento complicado, dado os prazos da revistas, mas é um preview importante.

As revistas mensais e especiais, por terem “mais tempo” são, por outro lado, as que mais sofrem. Você revê tudo de novo o que você já viu, fica horas e horas vendo um milhão de fotos, lê o que já foi publicado, revê suas notas, e tem que mostrar algo “novo”, uma leitura mais aprofundada daquilo tudo, ser mais criativo nas legendas, dar um “novo” nome para aquilo que todo mundo já deu…

De qualquer forma, já passei pela cobertura online e pelas revistas mensais, estou muito afim de cobrir para uma semanal. Será que eu consigo nesta temporada????

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12 Comentários

  1. Ótima receita. Só um detalhe: malhas são diferentes de tecidos planos em sua construção. Basicamente, malhas esticam e planos não. Plano: tricoline de algodão, linho, cetim, etc. Malha: jersey, viscolycra, suplex, etc.

  2. mas meniiiino, assim vc precisa de um bloquinho pra cada desfile!!…..rs. BEIJO!

  3. Oliveros,
    Texto ótimo! Também acho ótima a idéia do release com a descrição do look e nome da modelo, bem didático. Agora, se você me permite, gostaria de fazer uma correção: Tecidos planos são os formados por trama e urdume, como o denim por exemplo, são os mais estruturados. E existe os tecidos de malha que tem esse nome pois ao observarmos sua estrutura podemos constatar uma “malha” com o fio. Será que consegui explicar direito? Basicamente temos 03 tipos de tecido: Malha, Tecido Plano e TNT (que são os tecidos não tecido, um exemplo é entretela).
    Espero ter colaborado.
    Beijo,
    DouG

  4. DouG e Natalia: Já foram devidamente incorporados no post!!! Tks a lot!!! Viram como ainda estou aprendendo???

  5. Vivendo e aprendendo meu caro!
    Beijos,
    DouG

  6. Oi Ricardo!!!! sou a Adriana amiga da Mariana e do Xico aqui do Rio…adorei o seu blog, muito bom mesmo!!!!textos maravilhosos! você vai dar uma ” palhinha ” de arquitetura tambem? ia ser muito bom…
    um beijo grande e parabens!!!

  7. [...] ainda é trocar idéias aqui no blog e nos comentários. Ninguém aqui tem intenção de fazer análises e críticas das coleções, mas a gente sempre quer pensar em novos jeitos de usar o que mais tem a nossa cara, [...]

  8. [...] de embarcar para a primeira cobertura dela no evento. 2- Outra dica de ordem mais prática, é um excelente texto do Ricardo Oliveros, publicado antes da Casa de Criadores. Além de observações super pertinentes e interessantes, [...]

  9. [...] sempre mointo sintético – e quem ensina a diferença entre tecido plano e malha é a Natália num comentário do blog Fora de Moda (não é ótema essa blogolândia, [...]

  10. [...] blog do Ricardo Oliveros tem um post ótimo, super explicativo, sobre esses aspectos formais que devem ser considerados na hora de julgar um [...]

  11. [...] eu lembrei daquela “aula” que o Oliveros deu no blog dele, sobre como analisar um desfile/coleção. Que ele explica direitinho tudo isso. Que primeiro a [...]

  12. voltei pelo post do luigi e adorei, é bom ter caderninho msm, bela aula :)


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