Maurício Iânes inicia performance na Bienal

A esta hora o Maurício Iânes já começou a vagar nu pelo prédio da Bienal. Até o dia 16 o artista e stylist vai depender de doações do público para comer, dormir e se vestir na Bienal na performance A bondade de estranhos.

Ele é formado em Artes pela FAAP e trabalha com vídeo, projeções, instalações, objetos e performances. Na moda, eu conheço ele há tempos, e me lembro que no começo da parceria com o Herchcovitch ele não se deixava fotografar.

Os anos foram passando, e teve um momento que eu dei uma pausa no mundo da moda e fui trabalhar com artes plásticas. Fui convidado para ser produtor executivo na abertura do Museu Niemeyer em Curitiba. Eram 7 exposições que abririam o museu, e eu fui convocado para ser curador assistente de uma sobre o urbanismo do Jaime Leiner. Era pequena e consegui juntar uma equipe ótima de montagem.

Aí teve um momento de urgência, que além de cuidar da minha própria exposição sobre o urbanismo da cidade, tinha a exposição central, Matéria Prima, com curadoria da Lisette Lagnado e Agnaldo Farias. Fui resolver pepinos. Lembro-me até hoje, que na abertura, o Fernando Henrique estava adentrando por um lado, e a gente, saindo por outro, com baldes, vassouras, finalizando a exposição.

Um dos escolhidos para Matéria Prima, era o Maurício Iânes, com a performance “Permanecendo em Silêncio” (2003). O artista colocou duas cadeiras simples, sentou em uma delas, deixando a outra vazia. Nas mãos, um bloco de papel de carta em branco. No rosto, nenhuma expressão. Você sentava e ele entregava um papel para você. 7 dias, durante 7 horas. Na parede, um diário dele com os papéis deixados pelo público.

permanecendo-em-silencio2.jpg

Eu sentei ali e nenhuma expressão nele, um vazio, aquilo que poderia ser uma aproximação, era de uma distância, de um silêncio tão incomodo, tão doloroso. Eu o conhecia só dos trabalhos com o Herchcovitch, pois não ia à Galeria Vermelho, porque na época, achei a exposição Marrom (2002), com curadoria da Dora Longo Bahia, uma coisa que não entrava na minha cabeça, como produtor de arte. Achava tudo muito em processo, achava tudo um clubinho meio fechado. A coisa só se resolveu com muita conversa com a Lisete sobre arte, e depois que fiquei amigo do Eduardo Brandão. E deu no que deu….

Voltando, acabei confessando para ele a minha admiração pelo trabalho dele, enquanto stylist, o quanto era difícil eu em começo de carreira, conseguir uma entrevista com ele ou com o Herchcovitch, etcetcetc… É claro, que depois, não me aproximei dele.

Depois, que fiz as pazes com a Vermelho, passei ser até mais que um habitueé, como todo mundo sabe. E pude acompanhar de perto o trabalho do Ianês. Depois, acabei firmando mais meu pé na moda, como jornalista, e pude também acompanhar o trabalho dele como stylist. E por circunstâncias da vida, acabei ficando mais próximo dele.

ianes-e-arvore.jpg

Têm um vídeo do Maurício, Sussurrando (2006) em que ele diz coisas para uma árvore, e que não se ouve o que ele está dizendo. Em Amor a Flor da Pele, meu filme de cabeceira, tem a mesma cena, como outro sentido, em que o Chow (Tony Leung), diz o nome da Li-chun (Maggie Cheung) num buraco de pedra, espécie de muro de segredos.

Eu sei que a comparação parece óbvia demais. Mas o ponto em que eu quero chegar é que nos filmes do Wong Kar-Wai as relações nunca acontecem, a comunicação nunca se dá. E por incrível que pareça, a comparação com os filmes deste cineasta, sempre foi uma das chaves para que eu compreendesse o trabalho do Ianês.

Nestes anos todos, mais do que a imagem, como é o seu trabalho de stylist, o seu fazer de artístico, está centrado na linguagem e a comunicação, e muitas vezes a impossibilidade dela. A dificuldade da comunicação verbal.

Na individual que o artista fez na Vermelho, Mensageiro, em 2006, o texto crítico é da Kiki Mazzucchelli. Para fazer um texto deste tipo, a gente tem que conversar com o artista, ver a obra apresentada, ver a trajetória do artista e tentar estabelecer um ponto de vista, que ajude o público a ir além da contemplação do trabalho.

Na abertura do texto, “O Verbo Encarnado”, a crítica revela um texto que o Maurício havia lhe enviado, para entender o ponto de partida dele:

“Tomara chegue o tempo, graças a Deus que em certas rodas já chegou, em que a linguagem é mais eficientemente empregada quando mal empregada. Como não podemos eliminar a linguagem de uma vez por todas, devemos pelo menos não deixar por fazer nada que possa contribuir para sua desgraça. Cavar nela um buraco atrás do outro, até que aquilo que está à espreita por trás seja isto alguma coisa ou nada comece a atravessar; não consigo imaginar um objetivo mais elevado para um escritor hoje.”
(Beckett em carta de 07 de Julho de 1937 a Axel Kaun – publicado em matéria da Folha de SP, 01/04, por Fábio de Souza Andrade)

mensageiroianes.jpg

Esse perseguir no Ianês vai sempre no limite, mais do que conceitual, das resistências seu próprio corpo. Na mesma exposição, ele percorre vendado um caminho de tábuas finas, levando um pequeno pedaço de papel de um ponto a outro. Nós, não sabemos qual a mensagem é levada, mas acompanhamos aflitos, o Mensageiro, silencioso, cego, percorrendo um caminho que é bastante perigoso em alguns trechos.

mensageiro-2ianes.jpg

Mas, na vida a gente não é assim? Levamos e trazemos tantas mensagens que nem sempre são nossas, por caminhos que são tão tortuosos, perigosos, em nome de desejos, amores, carências? Muitas vezes chegando em limites que nosso próprio coração cego nos leva?

O não-limite é o que não falta em Iânes. No trabalho Apophasis (1997), ele tem o corpo enrolado por uma fita isolante negra, e fica ali exposto esperando pelo último raio de sol, entrar na Galeria. O corpo não respira, e aquela figura negra, quase múmia, fica ali, imóvel, e a gente aflito, porque a qualquer hora ele pode cair, não agüentando os limites que o corpo em si, necessita.

apo11.jpgapo2.jpg

Recentemente na Verbo, ele volta para o mesmo espaço do cubo branco da Galeria, agora, nu, deitado, abandonado, numa colcha de glitter, coberto com um pouco do mesmo material, em Zona Morta (2007). O olhar parado, o silêncio, são os mesmos de “Permanecendo em Silêncio”.

ianes.jpg
Foto: Ding Musa

O público nem sabe como reagir, diante do corpo agonizado, melancólico, quase morto. Ao mesmo tempo, tem aquele brilho dourado, barroco, alegórico. O significado do Barroco brasileiro na arte é isso, trabalha com a vertigem dos sentidos, com as junções do sagrado e do profano. Zona Morta tem todos estes significados, num simples corpo deitado no chão.

alfa.jpg

O espírito Barroco de uma certa forma está presente na trajetória do artista. No vídeo, como o próprio nome revela, “Alfabeto Barroco” (2005), ele agora totalmente coberto de glitter, e realiza uma espécie de mantra com as letras do alfabeto português formando frases, que demoram a fazer sentido nos seus 20 minutos.

mela.jpg

Na performance Melancolia (2005), durante 4 dias ele escolhe partes da Galeria Vermelho para sua imobilização, vestido com uma roupa negra, e um enorme aplique na cabeça feito de cristais, que se espalham, se penduram, se emaranham, com uma extensão de pensamentos vertiginosos.

740.jpgianes-melancolia-2005.jpg

Agora na 28a Bienal, ele radicaliza a relação entre espectador e obra e confia que os estranhos darão algo a ele: a possibilidade de sobreviver no Vazio. Eu já sei que vou levar para ele. E você?

VEJA AS FOTOS DA PERFORMANCE

About these ads

6 Comentários

  1. olá oliveros!
    trabalhei como guia da sua exposição na mi casa, e agora por acaso encontrei seu blog.
    estou lendo tudo e adorando.

    gosto muito de performance e tenho estudado mais sobre.
    não posso perder essa!

  2. Oi Ricardo tudo bem?

    Aqui em Brasilia, nao tenho muitas opções, fiquei com muita vontade de levar alguma coisa para esse moço rss,
    No domingo fui a apresentação dos 10 anos do Bazirah, um grupo de dança contemporênea daqui, foi mega bom! Ví agua e sal ,i um misto de performance, teatro , dança! sai de la com muitos questionamentos… é sempre bom ne?
    bj grande e depois me conta o que vc levou pra ele?

  3. o trabalho do iânes é tão incrível. me lembra o sozinho, sempre.

  4. [...] * E pra quem ainda não foi ver o Última Moda, blog do Alcino e da Vivian da Folha de São Paulo, o evento é uma ótima desculpa, não é mesmo!?! Não foi pro Rio e nem quer saber sobre o Rio Summer? Programa legal é ir à Bienal pra ver a performance do artista/stylist Mauricio Ianês. A gente já é fã dele por conta da parceria com o Alexandre Herchcovitch – é ele que faz o styling de todos os desfiles do estilista. Quem explicou super bem a performance na Bienal e seu caminho pelas artes foi o Oliveros, num post cheio de imagens lindas!!! [...]

  5. Fui a Bienal e pude ver a performance de Iânes, é realmente incrivel, ele não fala, não tem uma expreção no rosto mas você sente um carisma por ele inesplicavel, é impussivel passar por lá e não ficar um bom tempo o observando, a impressão que se tem é que ele tem uma energia muito forte, a cada “Presente” que ele ganha é uma reação diferente, é imperdivel! Concerteza, uma das melhores obras da Bienal.

  6. acredito que preciso me aprofundar mais em pesquisa para saber o verdadeiro porque que todas as obras de IANES
    EÉ INSPIRADA NO SILÊNCIO,FUI A BIENAL E FIQUEI QUASE uma hora pensando no que ele queria com aquela obra


Comments RSS TrackBack Identifier URI

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 41 outros seguidores