SPFW:: Herchcovitch dissolve fronteiras

O verão masculino de Alexandre Herchcovitch vai para além das fronteiras da moda. Ele já trabalhou com temas étnicos em outas coleções, mas nunca de uma maneira, digamos, clássica. Agora ele promove um autêntico cross-culture ao misturar influências de países que estão em situações de conflito, além de toques militares dos países colonizadores.

Ele me fez pensar sobre a função social da moda quando ela afirma valores que estão embutidos na sua forma. A roupa tem um quê de inclusão e exclusão a partir do grupo em que a roupa se insere. Não é só uma questão de estar in ou out em termos de tendências. São uniformes que podem revelar hierarquias, jogos de poder ou sedução. Os códigos por detrás disso estão sendo formulados e reformulados através dos anos, mas é um resultado de uma média moral e econômica.

Por exemplo, homens de ternos são todos iguais? Não. Por mais leigo que uma pessoa possa ser, a maioria sabe identificar um bom corte, caimento, tecido de qualidade num piscar de olhos e assim identificar o status de quem usa.

Pois é, quando Herchcovitch resolve embaralhar os códigos a coisa é mais sofisticada. A cada look apresentado era impossível definir a etnia que pertencia cada peça. É como se ele dissesse que as fronteiras não são reais, elas foram criadas a partir de interesses políticos e religiosos e que em nome disso pode-se matar.

O golpe de mestre sempre é que mesmo com todo este discurso, o estilista consegue fazer, além de tudo, uma coleção cheia de desejos. As formas são muitas vezes ousadas, têm peças de impacto como a camiseta vestido, as estampas fortíssimas, os inúmeros bordados, e ainda assim com uma cara de streetwear misturada com alfaiataria.

Muitas fronteiras foram ultrapassadas neste desfile: religiosas, políticas, masculinoxfeminino, formalxinformal. Mas a maior delas é a da sobrevivência. Alexandre passou por mal bocados por causa da I WAS e conseguiu dar a volta por cima. Não só sacudiu a poeira, como colocou ela colada nos rostos queimados dos modelos, no make sempre incrível da sua parceria com Celso Kamura.

E por falar em parcerias, um detalhe incrível é a série de lenços usadas pelos modelos. A idéia surgiu do stylist Maurício Ianês, que no seu trabalho como artista desenvolveu uma série de bandeiras que também falavam da hipocrisia dos símbolos patrióticos. Nos lenços ele mistura as bandeiras dos países e eles vão ser uma série limitada, que serão vendidos não como acessório, mas como obra de arte. Entendeu como as fronteiras são cada vez mais frágeis?

FOTOS: Charles Naseh (CHIC)

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