A arte de parecer o que não é

Ron Mueck

O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.

O palpável é nada. O nada assume essência.

Goethe

 

Em 1917, quando Marcel Duchamp enviou um urinol para uma exposição, a realidade da arte, e por extensão, da vida, nunca mais foi a mesma. As formas de representação alcançaram infinitas esferas de possibilidades e velocidades que nenhuma outra época presenciou.

 

Seus seguidores não fizeram por menos. Se a invenção da fotografia parecia ter decretado a morte da pintura, na América da década de 60, o hiper-realismo provou que ainda não era a hora da missa de sétimo dia da pintura, tanto que Richard Estes, um dos expoentes do estilo, dizia: “Não acredito que a fotografia dê a última palavra sobre a realidade“.

 

Duane Hanson impressionou o mundo na década de 70 com suas figuras humanas em fibra de vidro e roupas reais como em Turistas (1970) e em Supermarket Lady (1970). Mesmo efeito causado por John De Andrea (1941), com suas mulheres nuas.

 

Como os movimentos da arte não seguem necessariamente um calendário, o impacto das esculturas hiper-realistas é retomado por Ron Mueck. Um menino agachado, como embaixo de uma mesa, com grandes olhos assustados, em proporções gigantescas, foi a obra que o artista apresentou na Bienal de Veneza, em 1991.

 

O hiper-realismo tem como característica básica a busca de clichês e de elementos do cotidiano, que na verdade nunca existiram da forma que foram “retratados”. Podemos sugerir algumas aproximações deste espírito aplicado na moda.

 

Na década de 80, Marc Jacobs foi demitido pela Perry Ellis por criar uma coleção inspirada no movimento grunge. Quase duas décadas depois aquele grunge-Jacobs se tornou referência, muito mais do que a banda Nirvana, por exemplo. É uma reinterpretação daquele universo, que nunca existiu como o estilista propusera.

 

Na última temporada, Lady Vivienne Westwood mostrou roupas inspiradas em conto de fadas e personagens infantis, como a Branca de Neve. Se a própria Branca de Neve é uma invenção, o que dizer então desta passagem para o mundo real? O lingüista e filósofo Unberto Eco já havia dito que a Disney é maior cidade imaginária que o mundo conhece. Tão imaginária quanto Kate Moss flutuando no desfile de outono/inverno de 2006 de Alexander McQueen.

 

É inegável que a moda como linguagem, tem a capacidade de produzir imagens que revelam, como poucas, o espírito de seu tempo (zeitgeist) e isso, talvez, explique porque cada vez mais galerias e museus dão espaço para as relações que ela propõe.

 

Está certo que estamos esperando por uma nova definição do espírito século XXI e deixemos o saudosismo e o passado para trás. Contudo, enquanto a moda tiver esta capacidade de caminhar pelo fio estreito que separa o real e irreal, ela vai continuar a ser uma das linguagens mais importantes do mundo contemporâneo. E pelo andar da carruagem de Maria Antonieta tomara que a moda possa de fato conceber um mundo novo, porque a vida por aqui está dura, muito dura. E, por enquanto, eu nem quero saber onde mora essa tal de realidade.

 

 

[Texto originalmente publicado na Key Magazine]

Anúncios

Deixe um comentário

Nenhum comentário ainda.

Comments RSS TrackBack Identifier URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s