Leonilson, Leo, Zé: Vale a pena ver de novo

Se estivesse vivo, Leonilson completaria 50 anos no dia primeiro de março. A AIDS o levou muito cedo em 28/05/1993. Para lembrar a data, a Estação Pinacoteca abriu a exposição “Leo, 50”.

Eu era muito jovem quando freqüentava o Madame Satã, nos seus primórdios na década de 80. É engraçado quando me lembro desta história. Tinha um cara, muito alto e magro que freqüentava o clube. Me dava medo, não sei porquê.

Nos anos 80 parecia que a gente podia tudo. Na época, eu comecei a fazer performances, fazia aulas com o Klauss Vianna, tinha um grupo. As relações entre arte, moda, performance eram muito intensas. Eu estava fazendo um trabalho de dança sobre o Oiticica, inspirado no seu texto “Aspiro ao Grande Labirinto”, que foi publicado pela Rocco em 1986.

Um dia fui na galeria de arte da Luisa Strina para ver uma exposição de um jovem artista, o Leonilson. Qual não foi minha surpresa, que o artista era aquele cara mal-humorado, que me dava medo no Satã. Eram vários desenhos, colagens, e saí de lá emocionado. Foi identificação a primeira vista.

Eu comecei a gostar de arte, de verdade, sem mediações intelectuais, sem estrangeirismos, tão em voga na época. Parecia que aqueles desenhos estavam falando diretamente para mim. Não tive coragem de falar com ele.

Anos mais tarde, vi o documentário “Com o Oceano Inteiro Para Nadar” de Karen Harley. Tem alguns trechos no Projeto Leonilson. É de chorar de lindo. Conheci a autora sem querer num reveillon na praia de Carneiros (PE). Ela se baseou nos diários que o Leonilson gravou, para construir um dos melhores documentários sobre arte que eu já vi.

Em 2003, fui convidado para fazer uma curadoria para Curitiba, chamada Imagética. Dividia a curadoria, Ricardo Ribenboim (ex-diretor do Itaú Cultural), Ricardo Rezende e Eduardo Brandão, da Galeria Vermelho. Eu não conhecia o Edu, pessoalmente. Nós tínhamos que visitar uma centena de ateliês pelo Brasil e fui fazer estas viagens com ele. Nasceu uma grande amizade, que passamos a nos considerar parte de uma mesma família.

Numa destas, ele me disse que eu lembrava muito o Zé – como ele chamava o Leonilson – e comentei a história do Madame Satã. Ele riu, dizendo que era impossível ter medo dele. Foi o Edu e seu companheiro Jan Fjeld que cuidaram do artista até sua morte.

 

No mesmo ano, a Vermelho fez uma exposição “Vizinhos” para entender como a obra de Leonilson influenciava a nova geração de artistas. O Edu me chamou para fazer uma relação entre moda e arte nesta exposição, que resultou num sábado de performances, intitulada “Corações Ex-Postos”, com a Priscila Daurolt, Karlla Girotto, Raquel Uendi e Adriano Costa.

Na época, acabei descobrindo várias coisas sobre o Leonilson e mais profundamente minha relação com a obra dele. Da paixão dele por moda, de como ele gostava de desfiles, como sua obra sempre foi um presente para alguém.

Um livro que li na época, fundamental para a esta pequena curadoria, foi o de Lisette Lagnado, “Para Quem Não Comprou A Verdade”. Um trecho: “Leonilson incorpora o que Baudelaire chamaria de ‘um elemento relativo, circunstancial, que será, se quisermos, a cada vez ou de uma só vez, a moda, a moral, a paixão’. Nele reside toda a ambivalência da temporalidade: o passageiro e o frágil, i.e., a modernidade e a tragédia da existência”.

Esta história longa para dizer que gostar de arte, não precisa de conhecimento algum. É pura fruição. Mas quanto mais a gente se aprofunda em alguma questão, mais coisas temos para trocar, sentir. Para quem não conheceu o Zé, ou para outros que ele foi se tornando o Leo, e para muitos que ainda só sabem do Leonilson, na Estação Pinacoteca está em cartaz, até dia 20 de julho, a exposição “Leo, 50”, com curadoria de Ivo Mesquita. Ele selecionou esboços, anotações, objetos, maquetes e notas do diário do artista, mais 96 ilustrações publicadas entre 1991 e 1993 na Folha de S. Paulo, para a coluna de Bárbara Gancia.

leo3.jpg

Estação Pinacoteca
Largo General Osório, 66, Luz, São Paulo
Funcionamento: Terça a domingo, das 10 às 18h
Informações: (11) 3337-0185

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3 Comentários

  1. adorei conhecer o trabalho e a motivação do artista/leonilson via blog. super vou visitar a pinacoteca! (e, hoje, quem é alto e magro e me dá medo é o dudu bertholini. e eu também não sei porque. hahahahaha)

  2. querido, fiquei emocionada com o texto. ganhei mais um motivo para ver e sentir a expo. bjs

  3. Ricardo, cheguei aqui no blog pesquisando um tanto sobre o Leo (gosto de chama-lo assim) no grande oráculo google. que sorte a minha ser guiada pra cá. que coisa tão preciosa seu texto, cheio de simplicidade e delicadeza, como os trabalhos do Leo. tou aqui em Fortaleza, onde o Leo nasceu, escrevendo sobre a vida dele, a partir de referencias bem diferentes das suas. infelizmente não ouvi nunca o Eduardo Brandão contando do “Zé”, mas o conheço pelo tanto que ele é mencionado pelo Leo em suas agendas e cadernos. O Du, como ele chama. Seguirei penélope juntando um retalho aqui e outro acolá, tentando costurar um olhar do Leo para o mundo a partir de seus textos. o mais doido é que a família parece dizer uma coisa, os amigos outra. tento me concentrar mais na voz do Leo. vou tentando, nadando, mulher-peixe. delícia nadar no seu oceano. tudo de mais azul e mais bonito pra você, carol


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