Observatório de Sinais transfere palestra sobre tendências

Como foi divulgado aqui, nesta semana haveria 2 palestras no Observatório de Sinais. A primeira sobre Sensibilidades Emergentes e outra sobre Tendências e Macrotendências, foram transferidas para maio.

De qualquer forma, o birô de pesquisa divulgou na segunda (17) os resultados do Café Sociológico, realizado no dia 27 de março, com o tema “Macrotendências ou Macromistificação”?, que teve a participação de Kathia Castilho (doutora em comunicação e semiótica, PUC-SP) e Sérgio Lage (mestre em sociologia do consumo, USP).

Leia abaixo um trecho sobre a posição do Observatório de Sinais sobre o assunto:
“Nosso Ponto de Vista: Macrotendências”
Dia desses, deu numa revista de grande circulação que uma empresa de tendências aponta, para a primavera-verão 2008, “macrotendências” que resgatam valores como “boa vida”. Na mesma edição, algumas páginas antes e também depois, o noticiário dava uma série de sinais, não exatamente na mesma direção: falava de uma classe média empobrecida e endividada; de uma nova “geração perdida”, a dos jovens de 25 anos que cresceram num cenário de estagnação econômica; e do impacto arrasador da concorrência internacional sobre setores industriais inteiros, notadamente o têxtil, o de calçados e o de brinquedos, entre outros. O tom geral, como se vê, aponta para o descolamento entre o discurso oficial (o do desenvolvimentismo, o do PIB – revisto – de “10ª economia do mundo”, que lembra muito e estranhamente os anos 70) e o cotidiano da maioria dos brasileiros. Voltando à “boa vida”, é o caso de se perguntar: boa vida para quem, cara pálida? Provavelmente, a empresa, que é multinacional, está falando de noruegueses e de irlandeses, porque para nós, brasileiros, o que se aproxima são duros tempos de batalha.

Pode-se argumentar que, ao falar de boa vida (na verdade, uma “remasterização” do tema da qualidade de vida e da felicidade, que predominaram nos últimos anos, dentro da chave do Essencialismo – macrotendência, não custa lembrar, descrita pelo Observatório de Sinais em 2002), pretende-se indicar desejos das pessoas, que poderiam, em princípio, ser explorados – sob a forma de posicionamentos, mensagens, produtos etc. Mas, é exatamente aí que se dá o equívoco, pelo simplismo do raciocínio e porque não se pode entender uma macrotendência apenas pelo nível dos desejos (ao contrário de uma tendência de moda, por exemplo). Quem não deseja passar férias de luxo num super-hotel, no seu “lugar dos sonhos”? Ainda assim, isso não cria uma macrotendência da “viagem de luxo”, nem mesmo da “evasão”.

Há quem defenda que, para identificar novas tendências, o target a ser observado de perto são os jovens, de onde todas as inovações e novidades “emanam”. Nada contra estar em sintonia fina com eles também, mas o que dizer de macrotendências cruciais, como o envelhecimento da população e a identidade feminina pós-feminismo, para se entender o comportamento dos “novos velhos” e das mulheres de 30-45 anos, por exemplo – e que nada têm a ver com o público jovem? Aliás, falando de jovens, é claro que há muita coisa interessante acontecendo, inclusive no nível de um juvenismo sociocultural, de que tratamos diversas vezes nos últimos anos. Mas nem tudo floresce: a estagnação citada acima se faz notar, de forma nítida, na música pop-rock-eletrônica internacional, tomada pela mesmice, em que o máximo de criatividade que se consegue atingir é uma escancarada reedição do que as melhores bandas dos anos 80 fizeram (e agora, com a nu rave, aquelas da virada 80/90). Então, cadê o consumidor jovem “inspiracional”, que aponta mil e uma tendências modernas? Subiu no telhado…

E o que dizer das esforçadas jornalistas que assistiram a um punhado de desfiles das fashion weeks e identificaram “duas macrotendências”, no dizer delas mesmas? Dificilmente isso poderia ser possível de ocorrer – elas estavam se referindo, certamente, a “grandes tendências de moda” (no sentido de denominadores comuns das coleções) predominantes na estação. Bom, é por essas e outras que o mercado começa a duvidar dessas proposições, que fazem sombra à própria noção de macrotendência.

Ora, identificar macrotendências pressupõe método. Método que se baseia em regras, que não deixam espaço para “achismos”:
Macrotendências funcionam sobre temporalidades longas. É por isso que não dá para falar das “macrotendências de primavera-verão”! O que é possível, nesse nível, é falar de modas, modismos, crazes,fads, enfim, tendências de ciclo curto – que, obviamente, também têm o seu potencial a ser explorado, mas aí passamos do nível estratégico para o nível do consumo imediato.

Macrotendências devem ser entendidas como fluxos, e não como ciclos. Isso faz com que tenhamos a impressão – correta, aliás – de que os “grandes temas” são sempre os mesmos. Porém, são justamente as mudanças e as evoluções dos conteúdos desses temas de sempre é que importam, e que são verdadeiramente estratégicos. Conteúdos: representações, visões de mundo, valores, atributos… Como as pessoas vivem, pensam e se relacional com ou dentro de determinada esfera significativa.

Uma macrotendência é uma rede de sentidos, uma teia de significações. Importam, aqui, a diversidade de sinais, vindos de campos necessariamente diversos, e a interrelação deles, pois o sentido, todo sentido, só emerge de uma relação.

Os critérios quantitativo e qualitativo devem andar juntos. Na identificação de uma macrotendência, a quantidade de sinais é subordinada à sua qualidade, ou, dito de outro modo, à sua força, dada por seu peso relativo dentro de um quadro de vetores (de sinais, de forças), de que a macrotendência é sempre uma resultante.

A mensuração da força de uma macrotendência se faz por meio de sua capacidade de contar uma história, de falar sobre algo que seja relevante para as pessoas, por ocupar um espaço importante em suas vidas.

Mesmo (ou sobretudo) quando a simultaneidade e a complexidade são traços característicos do espírito do tempo, continua valendo a regra geral de que toda ação provoca uma reação, toda força provoca outra que lhe é equivalente e oposta, cada macrotendência tem a sua contratendência nos calcanhares.

2 Comentários

  1. Olá…tudo bem? Ainda não sei o seu nome, mas adorei o seu blog! Ótimo mesmo. Sou estudante de antropologia e apaixonada por moda. Já ouvi falar sobre o Observatório de Sinais e sobre Dario Caldas. Além de sociológo, ele tem uns trabalhos bem legais. Não conheço muito a empresa em si (li apenas o que estava no site e este resumo que vc postou no blog), mas gosto deste pensar o indivíduo para depois ampliar. È muito interessante já que são identidades individuais que se busca hoje. Pensar o ser e não somente o consumidor, como uma massa que aceita tudo.
    Bom, não falei muito, queria mais me apresentar mesmo. Já que este é um espaço para discussão, vamos lá!
    Super abraço e parabéns pelo blog

  2. Stella, leia o livro que tem o mesmo título do birô
    ( Observatório de sinais) .Foi o primeiro que li qdo fui fazer uma pós graduação em design de moda ( minha formação é em psicologia). O Império de Efêmero( Gilles Lipovetsky) tb é maravilhoso, mais profundo..eu li primeiro o observatório e achei ótimo ler depois..
    Desculpe invadir Ricardo..Tudo bem?
    adorei os resumos..


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