As tendências na moda morreram?

“Nossa moda tem sido ‘invadida’ por nossa sociedade e por nossa cultura, e essa invasão tem solapado e transformado a moda de tal forma que hoje não há mais moda ‘per se’, e, de um modo mais preciso, pode-se dizer que há um retorno à condição do estilo, mas com um novo enfoque, no individual em detrimento do grupo, da tribo”. Ted Polhemus

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Foto feita da Fila A, sem tratamento

Ao final de cada temporada de moda, a pergunta mais freqüente do consumidor final é o que vai estar na moda. Se você ler os blogs, como o antenadíssimo e profissional Oficina de Estilo, ou as revistas e as colunas de jornais especializados, vemos que a lista é tão grande, que praticamente tudo está na moda. Quando o vestido pode ser longo, médio, curto, curto-curtíssimo, balonê, bubble, franzido, de um ombro só, plissado, amassado, justo, largo, o que define o “vestido de verão”?

A liberdade de escolha é tão grande,  que resta para a maioria de quem escreve de moda é tentar organizar este balaio, para facilitar a vida de quem quer se vestir “na moda”. Dá-lhe uma sucessão de nomes criativos, que parecem saídos de um concurso de fantasia de carnaval: “mulher guerreira urbana”, “mulher techno romântica”, e por aí vai.

Na vida real, ninguém usa fantasia (infelizmente, confesso), usa roupa. E o que todo mundo quer é estar bem na fita. Ao contrário da moda passada, que a ditadura da moda passava por algumas poucas escolhas, depois da década de 90, parece que tudo pode.

Este processo foi identificado pelo antropólogo norte-americano Ted Polhemus, que cunhou o termo “supermercado de estilos”:

“Quando estava fazendo a exposição Streetstyle no Victoria & Albert Museum nos anos 1990, estive convencido de que, no futuro, assim como há 50 anos atrás, o vestir, os adornos, as escolhas musicais, etc. estariam organizados e facilmente identificáves nas subculturas ou “tribos urbanas”. Entretanto, o que realmente aconteceu é muito mais complexo. Ninguém é atualmente identificável simplesmente como “um techno”, um rapper”, etc.. Os movimentos na música pop e alternativa, na dança, no estilo de rua, etc. criam vocabulários a partir daquilo que as pessoas inventam. Porém, isso hoje é feito de uma maneira muito mais pessoal: misturas que formam nossas próprias, originais e únicas indicações de estilo em identidades pós-modernas. Portanto, mesmo que complexo e confuso, é sempre muito importante desenvolver esse olhar porque é esta busca pessoal de sentido que certamente afeta as identidades que consomem as indústrias do design´, declarou Polhemus para Cristiane Mesquita, responsável por sua vinda ao Brasil em 2006.

O que vemos hoje é exatamente isso, a “no-rules” (sem regras). Cada pessoa pode escolher aquilo que mais lhe convém, da maneira que ela quiser. Na década de 90 houve o boom da customização, onde o indivíduo podia intervir diretamente na roupa, inventando um novo modo para aquela peça que todo mundo tinha, algo como “estilista de si mesmo”.

“Com a pulverização de estilos que passa a existir nessa época, a própria idéia de tendência, é posta em cheque. E a moda, tradicionalmente um fenômeno quantitativo e massificador, definido pela estatística ‘como o elemento mais freqüente de uma mostra’, passa então de homogenizadora à uma das maiores produtoras de subjetividade dos nossos tempos.

O que acontece é que, ao longo dos anos 90, esse desejo de pertencer a um grupo, até então o apelo maior na construção da imagem, é substituído por uma nova sensibilidade, que se concentra no indivíduo. A importância das subculturas ou tribos urbanas, fenômeno dos anos 80, diminui e em lugar do grupo aparece o sujeito”. Sílvia Barros

A definição desta “sem regras” já vem sendo debatida por vários especialistas, porque o que estamos falando é de um novo comportamento e o mercado não quer perder este filão. E adivinhem quem é o maior responsável por isso? A internet que possibilitou o acesso a informação instantânea, e com a era dos blogs, todo mundo pode opinar sobre tudo e isto causou um verdadeira revolução, que nós mesmos ainda estamos presenciando. Ou seja, cada um passou, dentro de macro códigos, é claro, a ter sua própria voz e procurar seus próprios parâmetros. A informação não é mais bi-lateral com seu emissor-principal e vários receptores.

Por exemplo, um editor como o meu querido Alcino Leite, editor de moda da Folha de São Paulo, publica a lista dos melhores desfiles, mas uma googada rápida, você vai ver que muito antes, vários blogues já tinham dado sua opinião. Umas coincidem, outras não, mas todos tem sua importância, por que são tão acessados, quanto a Folha de São Paulo.

O mercado já detectou este novo comportamento e segundo Giovanni Sartori jeito de consumir mudou:

“Com a informação e os desejos do mundo moderno, as pessoas saem às ruas não para comprar roupas ou calçados, mas para comprar estilo de vida e atitude. Elas querem decifrar de que maneira aqueles produtos podem estar relacionados à sua vida. Para isso, as marcas não podem mais meramente vender objetos. Elas precisam se reinventar e oferecer relacionamentos“.

Está aberto mais um debate a la Piauí

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6 Comentários

  1. amigo querido que eu amo, eu ia ser mais feliz se te encontrasse todo dia, juro. e seu blog é um presente de aniversário toda vez que vc atualiza, mesmo que eu não faça tanto aniversário assim.

    concordo com a questão central dessa sua piauí, e acho que a coisa ficou tão louca que as pessoas (mulherada, especialmente) ainda se sentem confortáveis quando são indentificadas dentro que um “grupo”, mas a ânsia por se destacar dentro desse grupo ainda é maior. todo mundo quer “ser lido” de maneira correta e calculada – não acho ruim, tô vivendo disso! cada uma quer saber da sua prórpia “regra”, da ‘fórmula’ mais adequada e mais personalizada, tem uma catequese pessoal sendo feita por demanda delas mesmo. e sim, é pra gente prestar atenção e pensar a respeito…

    e “mulher guerreira urbana” + “mulher techno romântica” é muito leci brandão comentando enredos de escolas de samba, né? é uma piada interna antiga essa que vc reproduziu aqui (adooooro!).

    (adorei ‘googada rápida’!)
    (super obrigada por ser tão fofo com a gente e com o nosso blog!)

  2. Oliveros, como eu já disse, sou apenas uma curiosa. Sequer entendo de “como vestir-se bem”..rs. Mas eu gosto de ler textos com frescor como o seu. O que eu gosto é que, sempre que o post permite, vc dá um link para conceitos e pensamentos de gente que estuda a moda, o consumo.
    Quando vc estiver a fim, gostaria que falasse sobre o streestyle. Eu vejo alguns poucos sites (uns 4) e um de Stocolmo me parece o melhor. O caderno Ela do Globo neste fim de semana publicou sobre o modo de vestir dos japoneses de Shibuya, de como eles tem inspirado “tendências” etc e tal. Eu não consigo achar aquilo bacana, sabe? Parece que estão arrumados pra ir ao um “baile do cafona”, pq é muito montado, muita coisa usada pra chamar atenção mesmo.

  3. […] é uma das palavras mais fora de moda que existem”. De qualquer forma, a gente sabe que não tem mais super tendências definidas por períodos desde a década de 90: é fato que a gente vive, na prática, o supermercado de estilos. O que acontece é que as mesmas […]

  4. Muito bacana o post, Oliveros. E a foto é surpreendente – ainda mais que sem tratamento!
    beijos

  5. Nós somos os melhores, sua marca depende de boné de qualidade, entre em contato conosco. http://www.jeangouveia.com.br

  6. […] com o Oliveros quando cita Silvia Barros: “Com a pulverização de estilos que passa a existir nessa época, a […]


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