Meu desespero de macaco é não saber para onde vou

A Galeria Vermelho recebe as fotógrafas portuguesas Manuela Marques e Gabriela Albergaria para uma exposição que é tratada como duas individuais, mas o resultado é um diálogo em que elas se aproximam tanto pelo tema, a Araucária, quanto pela expografia, onde as obras são colocadas sem as divisões espaciais entre uma e outra.

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A árvore-instalação de Gabriela “invade” as fotografias de Manuela

É a segunda individual da Manuela na Vermelho. Ela é fotógrafa, radicada em Paris, minha querida amiga e host na Cidade Luz. Gabriela Albergaria eu não conhecia. Na minha última viagem a Paris, Manuela comentou sobre seu trabalho e como se iniciou o diálogo entre elas para esta exposição.

Gabriela desenvolve uma pesquisa que tem na história dos jardins o ponto de partida para intervenções que se desdobram em fotografias, desenhos, esculturas e instalações. Nesse sentido, a colonização das plantas em outros territórios é usada como metáfora de uma idéia de desenvolvimento social e de evolução.

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Parque do Buçaco (2007) de Gabriela Albergaria – Desenho e Fotografia

No Parque Nacional do Buçaco, um dos primeiros locais de aclimatação de plantas vindas das colônias portuguesas, ela descobriu a araucária, planta nativa brasileira, a qual inspirou a criação de um desenho a lápis composto por dez partes. Além dos desenhos, fotos e uma instalação composta de pedaços de árvores distintas, originárias ou não do Brasil, são enxertados criando um único tronco de aproximadamente 6 metros que ocupa o espaço.

O nome comum em francês da araucária é “Le désespoir du singe” (o desespero do macaco). A origem do nome, se daria porque os macacos na América do Sul não conseguiam alcançar os seus pinhões, as suas sementes, por causa da estrutura física desta árvore.

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Qual o verdadeiro desespero do macaco? O que alguns de sua espécie se tornaram?

Assim, pela metáfora do nome, Manuela Marques constrói suas fotografias. Tem que se ter tempo para ver as imagens dela, há uma beleza primeira, depois um estado de contenção, porque ela constrói um limite do que se mostra (enquadramento), para se chegar a sua totalidade, o que se forma para além da imagem. É um comentário a própria essência da fotografia.

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Árvore Compósita (2007) Instalação de Gabriela Albergaria – Sem título (2006) fotografia de Manuela Marques

Uma imagem muito significativa deste processo é um monte verde cercado por folhagem seca. Nosso olhar é atraído pela simetria da imagem, pelos grandes campos azuis e marrons, com aquele volume verde central. Bonita foto. Depois, percebe-se a grande extensão da parte seca, apesar do foco central da parte ainda verde. Concluimos, que este verde é pouco, muito menor do que o ângulo da foto mostra. Depois surgem as metáforas, pode significar um anuncio de resistência, para outros, uma morte anunciada…

Muito além da idéia que “uma fotografia vale por mil palavras”, vale lembrar que a foto é também uma forma de texto Todavia, a exposição não é tão piegas, quanto a descrição acima possa parecer.

O conjunto das obras é todo silencioso, mesmo quando deparamos com a grande “árvore” formada por partes de tantas outras, tudo repousa. Os diálogos entre elas não é histérico. É um convite à reflexão. No meio de tantas ações ecologicamente corretas, parar e pensar de onde viemos e para onde vamos, parecem ser perguntas tão óbvias, que esquecemos todos os dias de respondê-las.

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Sem Título (2006) de Manuela Marques

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