Peter Greenaway fala sobre a morte do cinema

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Peter Greenaway é um artista multimídia, que ficou conhecido principalmente pelos seus filmes “O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante” e “O Livro de Cabeceira”. Na quarta (3), para uma platéia composta principalmente de estudantes e professores da Faap, ele falou sobre sua polêmica teoria sobre a morte do cinema.

Ele é um homem alto, e como há dez anos atrás, quando veio ao Rio de Janeiro apresentar a ópera Cem Objetos para Representar o Mundo, continua com seus cabelos grisalhos, roupas pretas e uma metralhadora de 1000 palavras e conceitos por minuto.

Greenaway inicia com a projeção de seu último filme Nightwatching, sobre o pintor Rembrandt que foi lançado em agosto no Festival de Veneza. Ele chama o filme de biografia pictórica do pintor holandês, e faz parte do que ele chama de “alfabetização visual”.

Trailer de Nightwatching inspirado no quadro Ronda Noturna de Rembrandt

Para o artista o cinema morreu em 31 de setembro de 1983 com a invenção do controle remoto: “O zapping é o início da interatividade e da escolha. A passividade do cinema caiu em desgraça. Não faz mais sentido colocar um monte de gente numa sala escura em que só há um lugar bom para ver o filme”.

A questão para Greenaway é que os filmes se tornaram monótonos, depois de 5 minutos você já sabe tudo o que vai acontecer. Ele formula uma tese sobre as quatro tiranias do cinema:
“O cinema precisa deixar de ser escravo do texto, o cinema precisa deixar de ser escravo do quadro único, uma invenção renascentista que as novas tecnologias têm total condição de subverter. O cinema também necessita deixar de ser escravo do ator, e mostrar que filmes não devem ser parque de diversão para Sharon Stone e, por último, o cinema precisa livrar-se da própria câmera cinematográfica. Desta forma, acredito que o cinema será reinventado por completo”.

Leia abaixo trechos sobre que Greenaway fala sobre estas tiranias.

Tirania do quadro : : “O cinema é herdeiro da pintura, da fotografia e posteriormente do teatro. A visão é sempre retangular e quem assiste acaba por vivenciar uma experiência rara para o ser humano que é olhar para um quadro durante 120 minutos. O ambiente virtual e tridimensional do site Second Life é a prova de que o futuro já chegou e que as crianças e jovens de hoje em dia já vivem numa época pós-cinematográfica”.

Tirania do texto: : “De acordo com Derrida, a imagem é a última palavra. Não temos um cinema baseado na imagem. Cinema é criado a partir do teatro e da literatura. Um cinema que seja pautado na imagem é a minha busca”.

A frase de Derrida fica ali ecoando na minha cabeça: A imagem é a última palavra. Esse é o tema central do meu post no BlogView: A imagem da moda vale mais do que a moda?

Tirania do ator: :“O cinema não é um playground para Sharon Stone. Apesar de muitos filmes parecerem um palco para expor a figura central do ator, ele precisa dividir a tela com outras evidências do mundo, como uma figura em uma paisagem. O ator é treinado para fingir que não está sendo visto. Assim, não utilizamos o ator de forma sensata”.

Tirania das câmeras: : “O cinema tem que se livrar das câmeras. Já é mais do que evidente que o fotógrafo deixou de ser a pessoa mais importante do processo cinematográfico. O elo mais importante hoje é o montador, que pode fazer qualquer coisa a partir de qualquer coisa. Ele pode segurar um papel em branco e, a partir daí, desenvolver um filme de longa-metragem, com narrativa. Lembremos Picasso, que uma vez disse que não pintava o que ele via, mas apenas o que ele pensava. Acho que as novas tecnologias realmente nos oferecem um mundo de possibilidades para que mudemos por completo a noção que existe hoje do que seria o cinema”.

Nota de conclusão

Apesar do cineasta/artista fazer várias experiências no sentido de romper com estas “tiranias”, como suas telas múltiplas que comparecem em vários de seus filmes, de romper com a linearidade da narrativa, de usar múltiplas linguagens como puderam ser vistas no Videobrasil, ainda assim elas permanecem lá.

Por exemplo, a triologia Tulse Luper Suitcases deveria romper com as telas de cinema que ele tanto critica. Uma das maneiras, seria apresentar esta obra como uma jukebox eletrônica, onde o espectador pudesse selecionar trechos da trajetória do personagem, re-editando a sua maneira as narrativas presentes nos filmes, propondo outros graus de interatividade.

3 Comentários

  1. Excelente síntese.
    Concordo com suas conclusões.
    Penso que Greenaway faz aquilo que você sugere nas performances ao vivo que apresenta mundo afora.
    (Confesso que não assisti nenhuma in loco, apenas estive atento a sua repercussão midiática).
    Enfim, ele é um grande narrador.
    Parabéns pelo ótimo site, sucesso!
    D’Ugo

    PS – pesquisava aqui algo para inspirar-me na produção de um podcast com a música de Giovanni Sollima (Violoncelles Vibrez!),a mesma que anima o trailer de Nightwatching.
    Se puder, faça-me uma visita sonora: http://canal.podcast1.com.br/musica_discreta

    .

  2. […] Fora de Moda indica: Música Discreta O mundo da blogolândia é assim. O Roberto D’Ugo estava pesquisando para a produção de um podcast com a música de Giovanni Sollima (Violoncelles Vibrez!), a mesma que anima o trailer de Nightwatching e acabou aqui no Fora de Moda, na matéria que fiz sobre a palestra de Peter Grennaway  […]

  3. Creio que o próprio Greenaway assista apenas os 5 minutos de seus filmes, a própria representação da estaticidade pictórica.


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