Casa de Criadores 2 :: João Pimenta mostra a verdadeira raiz do streetwear

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Desfile de João Pimenta Inverno 2008 Casa de Criadores (foto: Alexandre Schneider/UOL)

As inspirações de João Pimenta para o inverno 2008 não são poucas. Em entrevista ao Fora de Moda, ele explica que a colaboração com a tecelã Silvia Ribeiro foi fundamental para que as roupas tivessem o impacto que alcançaram.

“Foi um trabalho de parceria. Ela desenvolveu os dreads com lãs e crina de cavalo, que foram usadas em várias peças. Escolhemos as cores, tingimos outras, e incorporamos este trabalho que não comparece somente nos mantôs. É um trabalho único que ela desenvolve, todo mundo deveria conhecer o trabalho da Silvia”.

Ao misturar no mesmo caldeirão — artesanato, presente também no incrível trabalho de palha africana que foram usadas em casacos, índios navarros, cultura maori – na verdade ele está fazendo uma coleção de streetwear na mais pura essência da palavra.

“Tem uma imagem dos índios navarros que me impressiona, que eles começaram a trocar sua peças, por roupas ocidentais, inclusive militares. É uma imagem de decadência, de morte de uma cultura”.

O que não se transforma, o que não se adapta, morre. É uma lei da natureza. O que se vê nas ruas de qualquer lugar do planeta é isso. De um lado, a convivência com o diferente, com o outro, que não são os nossos pares, e por outro, a sobrevivência possível daquilo que um dia se entendeu por moda.

Moda vem palavra modal, que em matemática quer dizer um determinado modelo que se repete dentro de um determinado universo. É nas ruas, não nas passarelas, nem nas revistas, que a moda completa seu ciclo e para estar lá que ela existe. A moda vem das ruas e para lá que ela volta. É o ciclo da existência deste universo, que tanto gastamos linhas e linhas, páginas e páginas para tentar entender.

Ouvi nos bastidores uma frase, tipo é tão Galliano, como um elogio mesmo, não como deboche. Entendo o que está por trás desta afirmação. Nas coleções masculinas de John Galliano tem este mesmo espírito de misturar elementos de culturas diversas, para expressar um streetwear. Assim como Herchcovitch, outro mestre do streetwear masculino.
A mesma operação, de modo muito singular e muito coerente com sua trajetória, foi o que João Pimenta propôs ontem, na Casa de Criadores. Suas peças chaves, como sua alfaiataria bem acabada em tecidos como moletons, malhas e jeans estavam ali. Sua ligação com a música, seu espírito rock’n’roll também. O que poderia ser um tempero étnico estranho como a cultura maori, passa a ser tão contemporâneo como uma música de rock.

Porque ele está falando de uma mesma coisa, da moda enquanto cultura. Se na coleção passada os exus compareceram, o espírito maori desceu de forma quase religiosa na segunda parte do desfile. As cores frias como os marrons e azuis escuros, cederam lugar para os pretos densos. Foi um momento que perdi a respiração, um momento de suspensão.

Entra o modelo com uma pintura que lembra as tatuagens maoris, com um manto de tecido preto com flores em devoré também negras, nas costas um arranjo de flores vermelhas já secas.

Sim, neste caldeirão cultural, neste melting pot, cabe tudo, porque as ruas não excluem nada, ao contrário dos shoppings, dos conjuntos habitacionais chiques cercados por grades e segurança, de lojas finas, todos estes lugares que habitamos e freqüentamos e achando que entendemos de moda…

Nós, na verdade é que somos pobres de informação de moda e não sabemos de nada. Nós que no final perpetuamos esta noção de moda que mira lá fora. Porque no fundo, sonhamos com Marc Jacobs e acordamos com Raia de Goya.

Acho corajoso, único e lindo, o desfile de João Pimenta. Tenho elogiado ele nas suas últimas 3 coleções e confessei para ele, que nunca tinha pisado na loja dele. E tava na hora de mudar isso, urgente.

VEJA O VÍDEO

4 Comentários

  1. […] as Semanas de Moda do Brasil. Mas o melhor mesmo está no texto sobre João Pimenta, onde Oliveros explica as referências da coleção, e porque João Pimenta faz um verdadeiro streetwear. Tem também um puxão de orelha em todos nós que falamos tanto na busca de mais infromação e […]

  2. Olha, eu acho a coleção do João boa sim. Tem muita peça forte e comerciamente acertada. O desfile é que não me pegou muito. Achei mal editado (mas isso é geral, no evento) e com styling confuso, o que não significa que o saldo não seja positivo. Agora, eu ontem ouvi que o Walério era o nosso Galliano, hoje que é o João Pimenta, calma lá, né gente? Menos, beeeem menos.
    Adoro suas coberturas super empenhadas. Bjs!

  3. Seus textos são ótimo, Oliveros!!!

    Gostei bastante do João Pimenta. Foi o que mais me empolgou nesses três dias… Lá no Descolex tbm tem bate-papo com ele e outros estilistas. Se der, passa lá! 🙂

    Bjo!!!

  4. Qualquer comentário que eu fizer sobre a coleção do João vai ser altamente tendencialista pois sou apaixonada primeiro pelo trabalho dele, depois pela pessoa maravilhosa que ele é, portanto me abstenho, 😉


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