Minha relação direta e indireta com Oscar Niemeyer

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Fiquei pensando muito em um post sobre Niemeyer, que completa 100 anos amanhã. O que escrever de diferente sobre tudo o que foi escrito? No fim, achei que um depoimento pessoal  seria melhor.

Minha vida cruzou indireta ou diretamente com Oscar Niemeyer por 3 vezes: quando era estudante de arquitetura, depois no meu mestrado e finalmente como profissional, no Museu Oscar Niemeyer.

Estudante rebelde de arquitetura: repulsa a Niemeyer

Estudei na FAU de Santos, onde tive vários professores modernistas. Como todo aluno, adorava falar mal de Niemeyer. Meu TGI foi um projeto de revitalização dos galpões da Barra Funda ao lado do Memorial da América Latina. Todo fundamento teórico era uma contraposição à arquitetura de Niemeyer.

Meu arquiteto-modelo nos tempos de estudantes era Lina Bo Bardi, autora entre outras obras, MASP e o Sesc Pompéia. A primeira maquete que fiz na vida, foi sua residência, a Casa de Vidro, localizada no Morumbi. Coloquei no masculino arquiteto-modelo, porque ela se referia a si mesma como arquiteto. Um dia, numa conferência dela no MASP, lá pela década de 80, fiz uma pergunta, daquelas típicas de estudante:

Você que é um arquiteto preocupado com o patrimônio histórico, com as relações entre o espaço construído e uma nova obra, como pode analisar a obra de Niemeyer, especialmente o Memorial de América Latina, que é um exemplo grosseiro de relação com seu entorno?”

Ela olhou para mim, fez uma pausa meio demorada, respirou fundo e soltou: “O que eu posso dizer de Niemeyer? Ele é um mestre!”. Anos depois, encontrei com o Marcelo Suzuki, que trabalhou com ela anos a fio, e me reconheceu: “Você não era aquele cara que fez a pergunta sobre a Lina? Foi a maior saia justa que presenciei”.

Mestrado em arquitetura: descoberta de Niemeyer 

Este encontro se deu na USP São Carlos, onde eu começava meu mestrado. Para chegar no meu projeto final foi uma luta. Comecei a estudar Rino Levi, um arquiteto que eu adoro, e além do mais era gay e casado com Burle Marx. Descobri um edifício-galeria dele. Meu orientador achou que era um excelente tema: edifícios-galerias no centro de São Paulo.

Entre os edifícios-galerias que mapeei, tinha um meio desconhecido de Niemeyer, o Galeria Califórnia, na Barão de Itapetininga, projetado no começo da década de 50, com os pilotis em V. No projeto original eram só 3, mas os engenheiros o conveceram que eram necessários 5. Já conhecia o Copan, o Eiffel na praça da Republica, lar por anos do Vitor Angelo.

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Maquete original do Copan 

Copan: objeto, casa e entevista com Niemeyer 

Aí começou uma nova relação com Niemeyer. Numa das matérias que fiz sobre Teoria e História da Arquitetura Moderna Brasileira, meu trabalho foi Niemeyer. Fiz o levantamento completo de todas as publicações de Niemeyer e sobre Niemeyer. Consegui as plantas originais do Copan, e para minha surpresa, o projeto original era realmente incrível. Não existia separação entre os corredores dos diferentes blocos. “Projetei como os corredores como se fossem ruas, onde os diferentes tipos de pessoas e classes pudessem se encontrar“, declarou numa entrevista que fiz com ele.

Aliás, foi nesta entrevista que consegui que ele finalmente assumisse o Copan como um projeto seu. O projeto foi encomendado em 1951 para ser um marco nas comemorações do quarto centenário de São Paulo, que seria comemorado em 1954. Um grande maciço hoteleiro, com lojas, restaurantes, e um prédio de uso misto, com galeria e apartamentos residenciais. A única foto que consegui da maquete original, foi numa publicação francesa, L’Architecture d’aujourd’hui.

Nesta época, me mudei para o Copan, e por lá morei por 3 meses. Mudei o mestrado. Faria sobre os edifícios-conjunto: Copan, Nações Unidas (Paulista com Brigadeiro) e Conjunto Nacional (Paulista com Augusta).

A companhia que encomendou o projeto, Companhia Pan-Americana de Hotéis e Turismo, faliu. O Bradesco comprou a empresa e resolveu retomar o projeto. O escritório de Niemeyer em São Paulo era de resposabilidade de Carlos Lemos.  Foram várias as exigências do banco. Entre as quais, a revisão das plantas de apartamentos, a separação dos blocos, e a transformação do hotel em prédios de escritórios. Assim, o projeto original foi desconfigurado e Niemeyer nunca assumiu sua autoria.

Na mesma entrevista que fiz com Niemeyer, perguntei se não estava na hora dele assumir o projeto, já que o Copan sempre foi identificado com ele. Ele pensou e disse: “Tem razão. Aquelas curvas são a minha arquitetura. A implantação também. Acho que está na hora de assumir este projeto mesmo“.  Foi o momento auge do meu mestrado.

Não satisfeito, fiz a pergunta que estava engasgada desde os tempos da faculdade. “Você não acha uma arquitetura inóspita o Memorial da América Latina?”

A resposta foi definitiva para eu apagar qualquer má impressão dele:

Todo mundo me pergunta sobre isso. O Memorial foi concebido com um espaço de manifestação popular, para juntar muita gente. Por que então fazer um bosque? É um espaço político. Agora, eu não posso definir como as pessoas vão se comportar. A arquitetura é sempre uma proposta, são as pessoas que definem seu uso. Se as pessoas não se manifestam, não é culpa minha“.

Neste momento, entendi porque ele é considerado o último comunista a lado de Fidel Castro.

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Estudos de Niemeyer para Museu Oscar Niemeyer em Curitiba 

Museu Oscar Niemeyer: a convivência por câmeras 

Anos depois, estava na Europa, quando recebi um email do Ricardo Ribenboim (ex-diretor do Itau Cultural) dizendo que tinha lido uma dissertação de mestrado sobre Niemeyer, que era minha e ele ficou surpreso. Trabalhamos juntos no Itau e ele não sabia que eu tinha mestrado, e por coincidência, a Base7 havia sido contratada para formular a política e as primeiras exposições do Novo Museu, obra de Oscar Niemeyer, que estava sendo construído.

Lá fui eu, quase morar em Curitiba, em 2002. Passava 4 dias por semana lá e voltava correndo para São Paulo. O povo de lá, com raras exceções, trata muito mal, o que eles chamam de “forasteiros”. Era uma obra polêmica do Jaime Leirner. Final de mandato, mais um museu, com o caos das instituições culturais, etc etc etc.

Fora isso, fiquei emocionado, confesso. Vi a obra inteira ser construída. Vi o famoso “olho” ser erguido. Participei de várias vídeo-conferências com Niemeyer e Jaime Leirner. O arquiteto odeia viajar de avião, então várias câmeras foram instaladas na obra, para que ele pudesse acompanhar a construção.

Montamos 7 exposições para a abertura, entre elas, Matéria Prima, com a Lisete Lagnado e Agnaldo Farias. Um dia antes da abertura, Niemeyer chegou e fez uma volta pelo Museu. Implicou com uma das paredes do “Olho” e pediu para ser retirada antes da abertura.

Pânico. Caos. Quase que meu ódio por Niemeyer voltou. Estávamos atrasados com a montagem e a parede que ele não queria mais já estava toda instalada, e pior, com uma obra do Tunga. Tunga tem uma única pessoa que ele deixa montar suas obras. Mas não era só este problema, tínhamos a Lição de Regina Silveira, outra de Waltercio Caldas, entre outras tantas que deveriam ser protegidas para a saída da parede.

O espaço foi liberado às 5 horas da manhã. Voltamos todos para montar a exposição. Me lembro até hoje, a comitiva do Fernando Henrique chegando por um lado do Museu e todos nós saindo do outro lado, sujos, com baldes e vassouras nas mãos.

3 Comentários

  1. Lembranças frescas são incriveis !! E melhor quando conseguimos resumir e situar fatos historicos com precisão!!

    Parabens pelo texto sobre o Art(quiteto) Niemayer.

  2. Seu lado arquiteto é muito interessante, também. Excelente texto!

  3. Mas vc é mesmo o homem das mil faces!
    Sempre inspirador passar por aqui 🙂


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