Entrevista para aluna de moda Bruna Pereira

A Bruna Pereira é de Santos, estuda moda e precisava de uma entrevista para seu curso. Como é filha de um casal de amigos muito queridos, a Maira e o Luiz, me pediu para responder algumas questões sobre a moda brasileira, aquisições, pirataria, moda ecológica, entre outros assuntos.

Como tenho vários estudantes entre os leitores, aproveito para deixar aqui algumas “pérolas” do meu pensamento Fora de Moda!

1. Em sua opinião, as grandes marcas andam tomando alguma providência quanto à pirataria de seus artigos?

São 2 lados da mesma moeda, todas as marcas entendem que um bom índice para saber se elas acertaram ou não é serem copiadas. É claro que se perde bilhões com produtos piratas, mas se ganha outros tantos quando se atinge seu público alvo. Isso em relação a grandes marcas, claro, como a Louis Vuitton ou Chanel, onde seus acessórios são super copiados. Porém, o consumidor da marca não quer uma cópia, quer um original. Então, acabamento, tecido, corte e caimento não são tão fáceis de copiar assim. Mas temos outro tipo de pirataria, que é a cópia por outras marcas, mas isso é uma outra estória.

2. Fala-se muito sobre “Eco Fashion”, para você, veio para ficar ou é modismo?

Veio para ficar. Só temos este planeta e seus recursos são limitados e isso faz parte de uma consciência que cresce cada vez mais. A moda por enquanto pode até usar o apelo ecológico como ferramenta de marketing, porém, um dia isso vai reverter como um modo de sobrevivência de fato.

3. Como está o nível do Brasil em relação ao internacional? Estamos sendo mais respeitados?

Nós somos muito jovens, não temos nem 50 anos de história de moda. Mas temos um destaque internacional na área de moda praia, considerada uma das mais criativas e bem acabadas do mundo. Nosso jeans, tanto enquanto o tecido quanto a moda, também é respeitada. Temos designers com destaque no cenário internacional, como Alexandre Herchcovitch e Carlos Miele e em breve, a Osklen. Isabela Capeto tem boa aceitação no mercado europeu e japonês. Ronaldo Fraga ficou entre 12 finalistas ao lado dos designers mais importantes do prêmio Brit Insurance Designer Awards do Design Museum em Londres. Estamos caminhando. Porém, a discussão de identidade brasileira na moda continua a todo vapor.

4. Como você vê as linhas de lojas populares assinadas por grandes estilistas? Seria uma popularização de estilo? E a qualidade onde fica?

Eu vejo com muito bons olhos. A informação de moda hoje é muito democrática por causa da internet, mas nem todo mundo tem dinheiro suficiente para consumir moda. As fast fashions como a Target, H&M e Topshop contratam estilistas renomados para criarem uma linha mais acessível e ainda assim assinada. Temos outros cases como Zara ou C&A. Não vejo problemas com o que você chama popularização de estilo, vejo como democratização da moda, com mais gente podendo comprar. Bom, bonito e barato é o que falta ser ensinado nas escolas de moda no Brasil.

5. O que falta ao Brasil para ser realmente competitivo com o mercado internacional?

O grande problema no Brasil é a política de juros e impostos que estão entre os mais altos do mundo. Isso impede que nosso parque têxtil seja maior do que temos hoje. Sem uma política neste sentido, nunca poderemos competir com mercados como China ou Índia.

6. Esse mundo é realmente fascinante e glamuroso como as pessoas acreditam?

Não. Claro que a imagem que a moda vende tem muito de glamour, tem esta cultura toda de celebridades ou artistas que ajuda a conquistar um mercado maior. Mas quem está por detrás desta imagem tem que trabalhar muito, é toda uma cadeia de gente que rala muito. Como em qualquer outra profissão. Só se destaca quem trabalha muito.

7. O que você acha que os estudantes de moda poderiam fazer pra ter uma melhor formação além do curso acadêmico?

Procurar cursos de extensão mais específicos pode ajudar dependendo da área que pretende seguir. Mas a melhor forma de aprender é estagiar. E nunca esquecer que a moda é cultura, não ficar preso somente neste universo. Ir a exposições, ver filmes, ler, interessar por outros universos são formas de criar repertório pessoal. Isso ajuda muito.

8. Ao termino do curso, qual a maior dificuldade encontrada ao ocupar um cargo na área?

A falta de experiência prática. A faculdade prepara a gente teoricamente e a prática é outra coisa. Tem um problema de formação também, as faculdades parecem preparar o próximo Herchcovitch e não se preocupam com um mercado que pode absorver outros talentos que se preocupam com o básico, o feijão-com-arroz da moda. E entender que existem várias áreas de atuação no mecado além da criação. O Alexandre Menegotti do Grupo AMC Têxtil disse em recente entrevistas que há uma dificuldade na área de modelagem.

9. Qual sua opinião sobre a holding Identidade Moda (I’M)? Seria o grande momento da moda brasileira?

Passada a euforia, hoje olho com mais atenção. Não devemos esquecer que estamos falando de investidores, que buscam lucros. Não que seja ruim, precisamos mesmo de profissionalização no setor, deixar de ser empresas familiares ou somente criativas. Acho raro o caso de um estilista que tenha bom senso de mercado, afinal suas preocupações são outras. Mas amanhã estes investidores podem vender este conglomerado para outros e assim por diante. É um momento mais de atenção, de experiência, que devemos passar para amadurecer.

10. Você acredita que o mercado pode ficar mais democrático, podendo ter preços mais acessíveis a grande massa?

Um conglomerado de marcas no futuro pode ter mais poder de negociação com fornecedores, pode baixar custos e conseqüentemente isso pode refletir no preço final. Mas depende muito da marca. Têm algumas que não se interessam em preços mais baixos, não é o seu target.

11. E quanto a identidade das marcas, você acredita que os estilistas conseguirão manter?

Isso é uma outra coisa. Eles podem não responder mais por suas marcas, afinal eles venderam. Depois dos casos do Marcelo Sommer, Lila Colzani (Colcci), Rogério Hideki e Vitor Santos (VROM), tenho impressão que os cuidados com os contratos melhoraram, mas isso não é garantia de nada. Isso não é só um problema daqui. Saint-Laurent não teve que deixar a direção criativa de sua marca? A questão aqui é que ainda não temos marcas com identidades tão claras e marcantes, são muito jovens. Porque quando se compra uma marca como Chanel por exemplo é claro que deve-se renovar a marca, tornando sempre atraente e competitiva, mas se ela perder sua identidade, quem vai querer continuar comprando?

3 Comentários

  1. Olá, Ricardo. Tudo bem? Sou repórter do Jornal O POVO, de Fortaleza (Ce), e estou escrevendo um caderno sobre o tema “Moda x Arte”. Gostaria de entrevistá-lo. Quais os seus contatos? Me envie por e-mail, por favor (jugirao@yahoo.com.br). Tenho urgência. Muito obrigada!
    Abs,
    Juliana Girão
    Repórter – Núcleo Cultura & Entretenimento
    Jornal O POVO – Fortaleza (Ce)
    (85) 3255-6115
    (85) 3255-6137
    http://www.opovo.com.br

  2. Olha eu no pedaço!
    Nem te agradeci direito, adorei as respostas!!
    Depois te escrevo sobre o meu 10, ok?!
    Beijo


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