A arte está contaminada por outros desejos

Por causa de um novo projeto com a MICASA, fui rever alguns textos que fiz quando ainda era curador, coisa que a moda e a vida acabaram me levando para outros caminhos. Vez ou outra, recebo alguns convites para pensar relações entre a arte e outras linguagens. Achei este texto, que resolvi publicar novamente.

Ou Porque Lygia Clark é a mãe e Geraldo de Barros é o pai da arte contemporânea brasileira

“A precisão da arte nÃo é uma precisão artesanal, mas de significados. Pode-se construir com rigor sem contornos rigorosos. Forma não é contorno nem invólucro, mas relação.” Waldemar Cordeiro

[MORAIS, Frederico. Panorama das artes plásticas séculos XIX e XX. Apresentação Ernest Robert de Carvalho Mange. São Paulo: Instituto Cultural Itau, 1991. 164 p.]

Na arte contemporânea existe uma determinada produção em que os limites entre as diferentes linguagens são cada vez mais estreitos. Esta produção busca investigar a natureza da própria arte, como que se a reflexão sobre o fazer artí­stico fosse no fundo uma experiência de transmutação do objeto-arte.

Por mais que a hibridação de linguagens seja um tema recorrente na jovem produção, isto não é nenhuma novidade. Isto é assunto no campo das artes visuais desde os tempos de Walter Benjamin.


Geraldo de Barros, Castelo de Carcassone, França, 1951
A questão, levantada pelo filósofo e crí­tico alemão no texto célebre “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, publicado nos anos 30. No Brasil, que carece de uma historiografia no campo das artes plásticas e visuais que faça frente as teorias de arte americanas e européias, já que temos em 1946 Geraldo de Barros iniciando suas pesquisas na área de fotografia e isso não é levado em conta na teoria da fotografia moderna.

Geraldo de Barros, sem título, 1949

Sua experiência investiga os limites do processo fotográfico tradicional ao realizar intervenções diretamente no negativo, múltiplas exposições na mesma pelí­cula, sobreposiçôes, montagens e recortes das ampliações que questionam o formato retangular da fotografia.

A década de 60 foi um campo fértil da Arte Pop brasileira, a qual era muito mais afeita a questões polí­ticas do que simplesmente uma discussão da forma. De alguns anos para cá, Lygia Clark está sendo inclusa no itinerário internacional, apesar, que Helio Oiticica, tenha tido um destaque maior.

Lygia Clark, Nostalgia do corpo coletivo 1965-88

“Nunca tive um conceito a priori. No começo, era uma naïve. Com meu trabalho é que fui ficando mais apurada para sentir e conceituar tudo. Aliás, eu sempre disse que, para mim, fazer arte era antes me elaborar como ser humano; não era ter nome ou ter qualquer tipo de conceituação. [FABBRINI, Ricardo Nascimento. O espaço de Lygia Clark. São Paulo: Atlas, 1994. p. 11-12.]

Já em 1957, em seus cadernos de notas e pensamentos, Lygia se rebelava contra a forma seriada do concretismo, por ser ‘uma maneira falsa de dominar o espaço’, já que impossibilitava ao pintor de fazê-lo de uma tacada’. E escrevia, com espantosa lucidez, e antecipadamente: “A obra (de arte) deve exigir uma participação imediata do espectador e ele, espectador, deve ser jogado dentro dela”. O diálogo que ela propõe de transgressão a arte, chegando a se declarar uma não artista.

Lygia Clark, Cabeça Coletiva, 1975

A Lygia Clark é um grande exemplo de uma artista que está desconfortável no meio e este desconforto vai propiciar uma pesquisa, inclusive com a própria técnica que o artista está usando, o que faz com que o interesse deixe de ser o meio em si, mas a melhor estratégia para abordar um assunto, o que fará com que sejam ampliados os horizontes desses próprios meios.

A partir deste dado, o trabalho dos pensadores que se dedicam a arte foi redobrado. Se Duchamp já havia desarticulado todo um sistema, hoje, é muito mais difícil perceber os limites e contornos da Arte. No Brasil, esta desarticulação vem de Lygia Clark. Depois dela, a arte não mais pertence a uma esfera institucional e reconhecida. Ela pode estar em todo lugar e tempo.

Isto não significa nem de longe uma uniformidade nesta produção. Por um lado temos artistas pós-duchampianos que retiram objetos do cotidiano para aplicar-lhes uma transcendência que antes nem imaginávamos.

Atualmente as proposições artí­sticas que trabalham com a fusão de áreas de expressão e tecnologia revelam outros caminhos possí­veis da arte contemporânea, e que não vão negar o valor da pintura, escultura ou gravura, ou linguagens ditas tradicionais.

O que importa nesta a contaminação das linguagens é uma maior abrangência do conceito de arte, sem precedentes na história e que se faz presente em vários meios, tecnológicos ou não, como os desfiles de moda, os desfiles de escola de samba, os videoclipes, os games.

No passado pensei as relações entre Arte e Moda. Agora estou pesquisando as relações entre Arte e Design. O resultado poderá ser visto na MICASA em junho. Aguardem!

2 Comentários

  1. bem bacana …

  2. […] A questão, levantada pelo filósofo e crí­tico alemão no texto célebre “A obra de arte na er… […]


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