O charme da intimidade do Les Amis

Recebi um convite para ir num jantar para um grupo fechado de pessoas que eu não sabia quem ia, somente quwm ia me acompanhar e só. Como quem convidava era o chef de cozinha Demian Figueiredo e ia ser na casa dele, não tive dúvidas e lá fui eu. Ele é sócio da Pila Zuca no Les Amis Cozinha para amigos. Quem passou pelo lounge da Fiat no SPFW sabe o quanto eles são bons.

No começo é meio estranho, confesso. Tenho uma certa resistência a este tipo de situação. Eram 12 pessoas, conhecia bem 3, duas só profissionalmente e os outros não. Os grupos vão sendo formados e começa a ser servido um prosseco com morangos, e usando um adjetivo banal, delicioso. Depois, uma sopa gelada de tomates.

A mesa está toda posta e impressiona. Num mundo tomado por informalidades práticas, é raro ver um serviço a francesa. Detalhes que fazem a diferença: louça branca (adoro), guardanapos de linho (raro) e pequenas taças pico de jaca com flores.

Demian explica que o menu do jantar é inspirado na cozinha portuguesa, que ele romanticamente chama de Lembranças de um inverno em Lisboa. Enquanto explica, na sua frente um prato com espetinho de polvo com alho e salada verde. O polvo é supermacio envolto com paprika picante. Eu pego o espeto com a mão e dou uma passadinha numa redução de aceto balsâmico, que dá aquele toque ácido que é sempre bom em peixes e frutos do mar.

Depois chega uma travessinha fechada. É engraçado que ninguém mexe em nada enquanto o Demian não sai da cozinha e explica o que vamos comer. Quando a gente abre a tampa, tem um ovo quase poche e na primeira colherada você encontra cogumelos no azeite trufado. Eu uso um termo que quando eu gosto de algum prato, digo que é comer ajoelhado. É o caso.

Com os comentários de todos sobre os pratos, a conversa vai fluindo e agora todos são um grupo só. Comida tem isso. Assim como ela agrega sabores, ela junta pessoas. Alguém citou que se sentia como na Festa de Babete. Lembrei de Como água para chocolate.

Conversa vai e vem, chegamos não sei por que cargas d´água sobre Angelina Jolie, Brad Pitt e Jennifer Aniston. Nisso todos já falavam entre si, e quem faria quem, quem não faria. Nesta, hora todos já estavam literalmente em casa. Tomando vinho, comendo boa comida, falando alto, rindo. Tão bom não falar de moda, já que estou no meio do fechamento da Playboy.

A esta altura já não era mais estranhos. Todos viraram comensais, que de acordo com o Houaiss, pessoas que habitualmente freqüentam e comem em casa de outrem. Prontos, então para o primeiro prato quente: Brandade de bacalhau e stick folhado com tapenade. Traduzindo, um purê com bacalhau e um biscoito com um patê de azeitonas pretas. Dos deuses. Comentei que eu gostava de comidas úmidas, bem molhadas, molinhas. Confort food, como chamam os ingleses, me lembrou minha chic acompanhante.

Ainda não terminou. O segundo prato foi Cordeiro Alentejana sobre fatia de pão português. O Damien contou que leva 6 horas para fazer este prato. Quando você morde o cordeiro ele se desmancha na boca. Comentei com ele, que isso sobre uma polenta de colher deveria ficar bárbaro. Estou com esta coisa de desejo de polenta mole, ultimamente.

Claro, que eu já estava sonhando com a sobremesa. Eu AMO doces. Quando vou a um restaurante escolho o prato em função da sobremesa. Prefiro pular a entrada, para chegar bem na sobremesa. Fiquei pensando, se até agora, nada tinha me decepcionado, o que me aguardaria no que para mim é o prato principal. A apreensão começou desde cedo, porque eu não sou totalmente fã da doçaria portuguesa.

O golpe foi genial. Ele pensou em dois ingredientes bem comuns da cozinha portuguesa como as amendoas e pera e criou uma pérola: torta de pera com compota de frutas vermelhas no Calvado e sorvete caseiro de baunilha. O que fez toda a diferença do mundo foi mesmo o Calvado, uma bebida fermentada a base de maçã. Uma sobremesa que leva em conta o doce, o cítrico, um pouco de teor alcóolico, a maciez do sorvete, o crocante da amendoa, a firmeza da pera, uma coisa.

O toque de elegãncia final é que não tinha somente o tradicional cafezinho, que mesmo fumante, não tomo. Um chá de hortelã fresca era exatamente o que eu não imaginava que queria e precisava. Aí, era se despedir, agradecer muito pela experiência e voltar sem nenhuma culpa pelas calorias a mais. Sim, sou neurótico com meu peso. Mas amanhã é outro dia, e posso passar somente com algumas folhas de alface…

Bom, para ser convidado é aquele esquema. Tem que ser amigo do amigo de quem foi convidado. O charme da intimidade tem destas coisas. Lembre da Teoria do Six Degrees: o que separa duas pessoas em qualquer lugar do mundo são no máximo outras seis pessoas. Ou seja, você está mais perto do Demian Figueiredo do que imagina. O email do evento é deportasfechadas@lesamiscozinha.com.br

10 Comentários

  1. Querido Ricardo,

    Que delicia de post, tive o prazer de saborear todos os pratos contigo lendo o seu texto. Alem dos perfumes , comer bem eh outro assunto que literalmente me da agua na boca .

    BBxx

  2. Que post saboroso!
    Les Amis e´tudo!
    bjos

  3. Post dili….. a vida é boa ne, Ricardo? eheheh
    bj

  4. Post chique, como a noite. Ah e faltou falar que a casa é linda, a música ótima e os garçons super finos. bjbjbjbjbj

  5. …já tô esperando o convite…

  6. Adoro seus posts… mas de um tempo pra cá vc só fala do que vc fotografou, comeu, usou… tipo diário de menina… vc parecia tão inteligente!!!

  7. Oi Andreia Tudo bem?
    Bom, isto é um blog e não vejo nenhum problema em parecer um diário de menina. Se tem algo que eu gosto de ver nos blogs são as experiências que as pessoas vivem e suas visões pessoais sobre isto. A experiência deste jantar, por exemplo, foi única em muitos sentidos da convivência no mundo contemporâneo e que pode dar várias idéias para muita gente. Mas tudo é uma questão de leitura também. Como diria Nelson Rodrigues, a unanimidade é burra. Assim como não assumir a crítica e esconder no anonimato. Pode escrever com seu nome mesmo.
    XoXo
    Gossip Oliveros Girls

  8. Gossip Oliveros Girls kkkkkkkkkkkk
    adorooooooooo

  9. Também sou fã de polenta mole, especialmente se for de fubá branco: divina! Confort food é é tudo, tem sabor de colo de mãe… e esse prato com ovos e azeite trufado já está nos meus sonhos!

  10. Que bela maneira de ver o mundo! Sem dúvida, a arte, a poesia estão em qualquer parte, mas só alguns têm sensibilidade para percebê-las. Parabéns pela beleza com que descreveu a noite e os pratos, me emocionou.


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