VIX: Último dia do Vitória Fashion Show

Acabei de desembarcar em Sampa.  Ainda na memória um terceiro dia fraco e com um desfile que chocou todos os presentes. Pelo menos um talento foi revelado nos desfiles dos estudantes da UVV, o que nestes tempos de massificação dos cursos de moda, não é pouco.

O terceiro dia começou com os estudantes da UVV que apresentaram 22 looks conceituais. O tema era arte contemporânea brasileira. Quando comecei a ler o release já me deu um alerta vermelho: perigo! perigo! O universo da arte, como sabemos, é uma fonte constante de inspiração para os estilistas, assim como um terreno bem perigoso. Fazer uma leitura que não banalize nenhuma das duas linguagens é mais difícil que a gente imagina.

O alerta, claro, tinha razão de ser. A escolha de artistas foi muito boa: Beatriz Milhazes, Leda Catunda, Manabu Mabe, Cildo Meireles, entre o mais conhecidos. Outros, preferiram um artista que eu gosto muito, pela delicadeza do trabalho, o Hilal Sami Hilal. Teve uma aluna que escolheu o Eduardo Kac, um polêmico artista da área da arte e tecnologia, que tem como obra mais conhecida a Alba, uma coelha geneticamente modificada, que fica fluorescente.

A sucessão de looks foi bem complicada. As leituras não eram tão óbvias, mas estavam bem longe de um entendimento mais aprofundado sobre quais aspectos de cada artista poderiam render uma proposta interessante.

Obra de Hilal Sami Hilal

Um que fez um trabalho ao mesmo tempo interessante e muito bem acabado foi o José Edson. Ele escolheu o o Hilal que é capixaba. Apesar de não ter exatamente um certo “desalinho” da obra do artista, Edson fez dois vestidos com aplicações de rolotês impecáveis. Ele está anos-luz dos outros estudantes e um nome que merece atenção. Não é a mesma coisa, mas me lembrou de alguma forma do Melk Z DA.

José Edson com o preciosismo do seu look de rolotês

All Jarreau: o que escrever???

Sabe quando você decide que vai arrasar? Pois é, aí que mora o perigo. Bola uma performance mirabolante, uma mensagem forte, umas roupas absurdas e no meio disto tudo, arranja um jeito de apresentar a coleção de fato.

A passarela está toda coberta com um vinil preto. Grandes vasos são colocados aqui e ali com lanças gigantescas e uma moto negra estacionada. Entra um homem negro meio vestido de guerreiro africano com uma criança. Eles vão até a ponta da passarela e o homem entrega um pomba para o menino que solta o pássaro no meio da sala de desfile. Depois a criança deita no chão ali do lado da moto.

Chegam os outros guerreiros e todos com óculos de sol meio a la Carlinhos Brown. E ficam todos perfilados ao longo da passarela. Com isso já se passou um tempão. Aí começam a entrar os modelos com jeans, bermudas, microssaia com tule por baixo (que mania é esta de colocar tule, hein?) e você ali tentando entender o que tem a ver aquelas roupas com a performance, e começa a se preocupar com o menino deitado lá no chão que está morrendo de frio, porque aqui o ar condicionado é uma coisa.

Aí entra uma modelo com uma roupa meio guerreira apocalíptica e você acha que a coisa está acabando. Os guerreiros vão para o fundo da passarela e você vai sentindo um alívio. Qual o quê? Entram mais e mais roupas, que continuam sem nexo, do tipo homem de calça jeans sem camisa, com uns lencinhos de estampa onça ora no pescoço, ora na cintura. Vários e muitos.

Mais um modelo absurdo com chifres enormes entra. A gente já está com saco cheio daquilo tudo. E mais roupas sem fim. Acha que acabou? Agora é a vez de um outra fantasia, meio aquele que a Leticia Birkeheuer usou no desfile antológico da Ellus no auditório do Ibirapuera.

A piada já rolava solta. “É uma homenagem a Letícia que ia desfilar na Lei Básica”. E mais e mais looks. E mais e mais e mais e mais e mais e mais. A criança lá no chão. “E a pomba, coitada, onde foi parar?” Pergunta alguém. “Será que não dava para tirar aquela criança dali do chão, olha como ela treme!”, dizia outra. “O que aquela motocicleta tem a ver com o desfile?”, falava um terceiro. E nada do desfile acabar. Já estava dando agonia.

Reza a lenda, que quando a gente não pode falar mal de um desfile, a solução é descrever. Nem é o caso, Eu só queria dividir aqui uma coisa que não dá para acontecer nesta altura do campeonato. A informação está aí para todo mundo. Foi gasta uma grana pesada ali. Se não tem know how para propor uma coisa mais ousada, faz o feijão-com-arroz (ou moqueca de abadejo) que está de bom tamanho. Agora, passar por um constrangimento destes, ninguém merece. Nem a marca, nem nós, nem ninguém. All Jarreau virou chacota: “Nossa, você All Jarreau, hein!” “Você viu o desfile da Al Jazira?”…

Lei Básica apela para Leticia Birkheuer

A esta altura do campeonato nada poderia me abalar mais. A Lei Básica já desfilou no Fashion Rio em 2004 e 2005, tendo a frente como diretor criativo da marca, Ronaldo Fraga. Lembro de imagens lindas, com Elza Soares cantando ao vivo num dos seus desfiles. Tanto que eu achava que a Lei Básica era mineira.

Anos depois, descubro que ela é capixaba e que está apostando mais no básico do básico. Lei Básica conta hoje com 800 pontos de venda distribuídos por todo o país, um show-room na Grécia e lojas próprias no Espírito Santo, Porto Alegre e São Paulo. A inspiração para o verão veio dos moradores do Brooklin em NY que buscam refúgio do trânsito sem perder o ar cosmopolita. (!!!!)

O catálogo tem ares de superprodução:

Na passarela, a beleza não rolou, com um make e perucas que envelheceram demais as modelos. A Leticia tava meio preguiçosa e nem chegava até o fim da passarela. No final, os modelos tentaram ensaiar um passinhos de dança, como no vídeo, que também não funcionou. Mas tudo bem, nada comparado ao desfile anterior.

5 Comentários

  1. Não conhecia o blog…

    Porém vendo-o pelos corredores do VFS, pesquisei sobre o blog logo após o primeiro dia evento, totalmente curioso para ver as critícas.
    Já que fiz o stylist de um dos desfiles.

    Parabéns. Adorei seus textos e críticas.

  2. hahahhaha.. hilario o texto do All Jarreau …. adoro seu ponto de vista.

    BBx

  3. Oi Ricardo, eu vi você na primeira fila do desfile da Lei Básica.
    Pois é, você falou tudo sobre o desfile da All Jarreau.
    E com muito humor.
    Beijotchau.

  4. kakakakakakaak! Muito bom! Tô rindo até agora… imagino o que deve ter sido ao vivo!
    beijos, mauren.

  5. Trabalhei de camareira do evento e amei todos os comentários… principalmente da al jarreau… meu Deus q q foi aquilo… a moto nem tinha visto mas eu estava la atras imagina como o publico ja devia estar de saco cheio ahahhahahahah.


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