Bienal de São Paulo se perde entre arquivos vazios

Estas são minhas primeiras impressões sobre a 28a. Bienal de São Paulo, que tem como tema Em vivo contato, com curadoria de Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen. No meio de uma crise que vem se arrastando por anos da própria instituição, o curador teve como projeto uma exposição que fosse uma reflexão sobre o papel da Bienal hoje. Numa atitude que é no mínimo corajosa, decidiu manter o segundo andar do prédio da Bienal sem obra nenhuma, o que gerou o apelido de Bienal do Vazio.

Prédio da Bienal de Oscar Niemeyer (Juan Guerra para Fundação Bienal)

Até então com a lista de artistas divulgada, fiquei imaginando que de vazio a mostra não teria nada, além do 2o. andar. O que chocou de fato quando comecei a ver a exposição pelo terceiro andar foi o que chamei de ilustração de um pensamento.

Com poucas e algumas obras bem datadas, os curadores explicam no seu texto:

“A curadoria convidou artistas que trabalham no limite entre realidade e ficção, entre construção de documentos e verdades instituídas, entre memória pessoal e história coletiva, para desenvolverem e/ ou apresentarem projetos que tragam à luz alguns aspectos da história da Bienal de São Paulo, seja por uma perspectiva social, documental, política ou arquitetônica”.

Pois é. Por mais que o desejo deles fosse uma reflexão crítica sobre o papel, ela tem que ser convidativa e clara para quem vai visitá-la. A Bienal é um dos maiores eventos de arte do país e a imensa maioria de seus visitantes é um público espontâneo que não necessariamente entende de arte. Isso é um dos pressupostos mais importantes que vejo numa exposição deste tipo.

A gente pode gostar ou não de algumas Bienais, mas sempre descobrimos um artista por quem nos apaixonamos, por alguém que nunca vimos, descobertas que transitam entre o erudito e o pop. Sim, nesta o candidato a hit absoluto é o tobogã do Carsten Höller, que provoca filas para quem quer descer do terceiro ou segundo pavimento pelo tubo. Tem o vídeo da finlandesa Eija-Liisa Ahtila de uma mulher que surta em The House, mas que é de 2002 e já foi supervisto. A delicadeza do trabalho de João Modé com uma projeção de um rastro de um barco na água.

Mas digo, é pouco, muito pouco. A maioria das outras obras sofrem com uma expografia ruim e com um sistema de sinalização pior ainda. Você tem que andar com o mapa da exposição todo o tempo para ver de quem é a obra, porque no espaço, a única informação são os números que ficam nas colunas, sem qualquer outra identificação.

Sinceramente? Acho válido o pensamento crítico sobre a Bienal, mas isso deve ser discutido de outra forma. Quando li que as performances tinham um lugar central na mostra, achei ótimo. Afinal, nada mais imaterial do que realizar uma série de trabalhos que tem sua materialidade apenas no momento em que acontecem. não vounem adentrar nas questões dos resíduos, da documentação, da vídeoinstalação e de outros meios ligados a performance.

Mas entre o sentido arquivista chato, pouco popular, dependendo da performance escolhida, ela sim, vai ter um poder maior de manter vivo o contato entre o público e a Bienal. O Fischerspooner foi uma boa mostra disso. O Maurício Iânes e o avaf prometem aquecer este debate até o final.

Então, fica aqui meu primeiro pensamento sobre a mostra. Os curadores deveriam ter aberto mão de todo o prédio e ter centrado fogo nas performances. O prédio inteiramente vazio teria mais significado do que como está agora parcialmente ocupado.

Quer uma sugestão? Vai lá para ver alguma performance mesmo. Porque de resto, você corre o risco de sair de completamente decepcionado.

3 Comentários

  1. mmmmmmmmmm. não consegui ir no domingo, mas que bienal medo né. vou tentar ver alguma performance com certeza, mas todo o posicionamento dessa bienal eu acho que é de se pensar…. não só no papel da instituição em si, mas essa coisa da bienal para pensar na bienal, não sei…

  2. Pensei que fosse te ver na abertura, que tava a Bienal do Calor, isso sim!
    Nos vemos hoje no Pemio Moda??
    bjobjo

  3. […] com sua performance está preenchendo o vazio da Bienal. Já comentei que se a Bienal estivesse realmente vazia e fosse ocupada apenas por performances […]


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