GENTE QUE FAZ:: ZECA GUTIERRES

A coluna que não tem nunca data para sair, mostra seu quarto personagem. Depois de Marcelo Ferrari, Vitor Ângelo e Olívia Hanssen, é a hora e a vez do jornalista e editor Zeca Gutierres.

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Conheci o Zeca (ou Guti) na década de 90 e sou fã do seu trabalho. Ele já passou pelas redações do Jornal da Tarde, revista Simples, Daslu, Estadão (bem rapidinho), fez parte da equipe do SPFW Journal na edição passada e hoje é editor do site Glamurama. Além disso, edita o Gibi Erótico e fez história com a revista on speed, que volta agora em versão online. Os dois últimos projetos em companhia do seu amigo e diretor de arte Jorge Morabito.

Para quem não conheceu a on speed ela foi lançada em maio de 1998 e de longe foi “A” revista. Foram 19 edições que apresentavam – antes de virar moda- o cruzamento de linguagens. Moda, música, arte e noite faziam parte do mesmo universo, tudo misturado. Ah! Antes também disto tudo virar lifestyle

Foi lá que li os textos afiados e memoráveis do Mario Mendes, as fotografias da Claudia Guimarães, do Renato De Cara e do Cristiano, as colaborações como stylist de Marcelo Sommer, os makes incríveis do Robert Estevão, um espírito de liberdade criativa muitíssimo raro. Melhor de tudo? Era Grátis.

Nesta entrevista, como sempre, ele não tem meias palavras e nem dá o truque. Com vocês Zeca Gutierres, tipo gente que fez, faz e fará! Sempre bem.

PRELIMINARES

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1. Conta um pouco da sua trajetória como no jornalismo
ZG: Sou de Mogi das Cruzes e aos 19 anos, no primeiro ano de faculdade de Comunicação Social, entrei em um jornal de bairro na minha cidade. Foi onde tudo começou, cobria cidade e até a Câmara Municipal. Nem queria ser jornalista, fazia teatro e achava que ia ser ator… Juro, eu tinha jeito.

2. Você já passou por muitas redações, escreveu mais de um milhão de laudas. Quais são seus highlights?
ZG: No caderno Modo de Vida, em 1996, no JT, foi quando entrei de vez pro mundinho, fazia matérias malucas e outras sérias. Para você ter uma idéia, morava na casa de Nina Lemos e ainda tinha o Guto Barra. Muito legal. Na revista Simples eu fiz matérias bem legais, mas não lembro de nada em especial. Na onspeed eu tive contato com artistas super talentosos…
N.R.: Fico imaginando as pautas que surgiam nesta casa! A Nina hoje tem os 2 Neurônios e colabora com pautas incríveis durante as semanas de moda. O Guto Barra foi para NY e teve uma incrível agência de notícias, o Planet Pop, que várias vezes me salvou na época do Supersite.

3. Por outro lado, com tanta bagagem, de vez em quando pagamos alguns micos. Lembra de alguma pauta que foi para o brejo? Ou uma matéria que mesmo natimorta teve que levar adiante?
ZG: Quando a princesa Diana morreu, o povo do JT pediu um texto e me gongaram porque estava uma bosta. Será que pensaram que eu era o Arnaldo Jabor??? Ah! Uma vez, também no JT, me joguei a noite inteira e perdi a hora do plantão. Quando acordei, faltava uma hora para o fechamento. Voei pra redação e chegando lá no bairro do Limão, a Nina Lemos estava lá para me salvar. Ficou todo mundo me olhando como se eu fosse a Amy Winehouse, e eu era mesmo!
N.R. Hoje o Guti não se joga mais e é figura rara na noite.

4. Qual a dor e a delícia da profissão?
ZG:O bom do jornalismo é que você não precisa de nada, além de um lápis, para construir sua história. Isto te torna mais crítico do mundo, evita que vire mais um bobo babando ovo para tanto lixo que as pessoas consomem. O lado ruim é que jornalista ganha muito mal. Por isso o povo é tão azedo…
N.R. Ele nem é tão azedo assim. Muito crítico, mas sempre com humor muito peculiar…

ATO EM SI

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Katia Miranda, hostess legendária em SP e Mariana Weickert beeem novinha nas capas da on speed

1. Há dez anos atrás você e o Jorge Morabito criaram a on speed, uma revista gratuita que fez história pela ousadia, formato, matérias e editoriais. Uma das grandes características foi reunir muita gente bacana escrevendo, produzindo e fotografando. Como você analisa a revista agora com todo este processo colaborativo?
ZG:Nem sei o que fiz direito, sabe? Vivia na maior loucura da noite. Jogação!!! Acho que instinto conta muito. A escolha dos colaboradores e a direção de arte do Jorge Morabito. Tinha também muita gente de diferentes mundos e idades participando. Não tinha essa de rodinha, de bairrismo. As pessoas davam tudo de si na onspeed, era por amor e não por dinheiro.

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Diário de Melanie (ilustrações: Julio Camarero & texto: Siegbert Franklin

2. Outro projeto que está em cartaz até hoje é o Gibi Erótico. Sexo é um assunto controverso por estas bandas. Ao mesmo tempo que somos considerados um povo bastante sexual, tem um lado meio (falso?) puritano. Como você encara isso?
ZG: Com o Gibi eu tive contato com artistas plásticos. Na on speed era mais a turma da moda. E artista não tem barreira. a nossa idéia foi sempre mostrar o sexo de maneira livre, vale tudo no gibi. E sexo, se for pensar, existe antes de tudo, das artes, da comunicação e da própria sociedade. É instintivo. Apesar de não anunciar, todo mundo gosta de sexo, né? E essa caretice acaba na primeira traição, né não? hehhee

3. Você é um jornalista da área de cultura e comportamento, mas também cobre moda. Como vê a postura do mundo fashion brasileiro de modo geral?
ZG: A moda brasileira é composta, em sua maioria, por pessoas que caíram nela de pára-quedas. O Mario Mendes diz uma coisa muito legal: se a pessoa não tem talento, ou vira estilista ou vira DJ. Eu sei, é uma brincadeira dele, mas no fundo tem um pouco de razão.

As pessoas querem as profissões hypes para aparecer na foto, sentar na primeira fila ou, quem sabe, apresentar um programa na televisão. É só ver o desespero das pessoas quando pinta uma chance de aparecer na TV e se mostrar como pessoa hype. Eu sempre digo que, no fundo, o mundo da moda é como uma quermesse de interior.

4. Como analisa a moda brasileira hoje?
ZG: Há ótimos estilistas e há muita gente “truqueira”. Há artistas e gente se passando por artista. Pergunte para as bibinhas que estão usando lenço palestino onde fica a Palestina e comprove.

UM CIGARRO DEPOIS…

paulobega

Universo Palace por Paulo Bega

1. A on speed voltou em versão online, conte um pouco sobre o desejo de trazer de volta o projeto.
ZG: Fazia um tempo que o Jorge falava de ter um site, mas eu sou um cabeça dura e sempre achei que revista tem de ser impressa. Adoro impressa, a idéia de guardar na estante, o cheiro de mofo, a sujeira que acumula com o tempo. Revista impressa é arte, né? Tem gente que pinta, tem gente que cria revista, ué.

Não vejo uma revista como algo que você lê e joga fora. Isso é Vogue, revista de informação. Sem querer ser o bacana, mas lembro que com a onspeed eu via os olhos das pessoas brilharem ao pegar ela nas mãos. Tinha desejo. No Gibi também foi assim: os dedos a pediam, tremiam de vontade. Isso é muito legal, é minha maior recompensa. Eu deixei de ter minha coleção completa das duas revistas para dar para os amigos. Burro, né?

N.R. Eu também me arrependo de não ter a coleção completa.

rogerio

Leve-me ao seu líder por Rogério Cavalcanti

2. Quais as mudanças que você sente da versão impressa para a versão online.
ZG: Na versão online a arte vem mais forte. O material digital pode se mover, isso é uma coisa nova, que ainda estamos começando a pegar o jeito.

No site tem uma parte que é uma home para outros blogs. Isso é bem legal. Uma troca super bacana. Ganho conteúdo e retribuo com mais visibilidade. Estou começando a gostar da internet, tem muitas possibilidades. Eu acredito que estou mais maduro, meu texto melhorou, estou mais rápido por conta dos 5 anos de pauleira no Glamurama e estou muito, muito mais crítico do mundo. Azedo, mesmo, mas também com ótimas pitadas de humor (negro, também)…

N.R. Fora de Moda tem a honra de estar na home dos blogs!!!!!

glamurama

Zeca Gutierres edita umas 40 notas por dia no Glamurama

3. Você lida com jornalismo online. Você acha que existe uma obrigação (ou ansiedade?) pela rapidez com que se dá uma nota?
ZG: Internet é meio terra de ninguém, É como a Buzina do Chacrinha. Nada se cria, tudo se copia. Mas, como na prisão, também há regras, não se pode pegar uma informação e dizer que é sua. Já vi casos de lugares que colocavam notas retroativas para roubar o furo do Glamurama. Coisa feia. E também acho que a internet é feita para ler rápido. não dá para se aprofundar muito. Isso é meio ruim, né? Mas é a realidade.

Hoje em dia, com a invenção dos blogs, todo mundo meio que virou jornalista, por isso, a diferença está nos detalhes, na visão pessoal do mundo, a edição do que é bom ou ruim no meio de tanta coisa, nos pequenos comentários, no sarcasmo, no duplo sentido. Escrever bem é um trabalho de anos, coisa que você vai construindo. Quando se vive disso, você acaba criando seu estilo.

4. Você está no Glamurama. Como se dá suas relações com suas fontes? Numa área de colunismo social esta relação é muito complicada ou é como qualquer outra área?
ZG: Então, já estou numa fase de não ter mais fonte. Sou editor e a única coisa que tenho tempo é de editar umas 40 notas por dia, trocar home e não deixar que nem um erro entre, senão o bicho pega pra mim… hahahah.

Muita gente critica o jornalismo de coluna social. Eu também tenho meus momentos de querer explodir tudo, mas acho que me dei bem justamente por não acreditar em nada daquilo, no sentido de querer aparecer na foto etc. Isso acontece muito, sabia?

As pessoas que fazem esse tipo de jornalismo são as que mais querem distancia do burburinho. É uma guerra doida, sei lá como explicar. A gente vê tudo de fora e muitas vezes ri muito das coisas. O lado B de uma redação é a melhor coisa… Trabalho é trabalho e o jornalista de verdade sabe cobrir um desfile de moda e uma rebelião na prisão.

mundoblog

Mundo blog no onspeedonline

5. Você lê blogs? O que acha deste fenômeno hoje no Brasil?
ZG: Estou lendo mais agora. Acho ótimo, porque só nos blogs vejo pessoas dizendo o que realmente pensam. Mas uma revisão seria bom, né?

1 Comentário

  1. Nossa, to exposto!!!!!!!!!!! HAHAHAHAHA


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